A culpa religiosa atrapalha meus momentos sozinha


A culpa religiosa atrapalha meus momentos sozinha

Lasciva, meu amor (eu te amo mesmo)!

Sou uma mulher de 26 anos, bem resolvida sexualmente (em termos). Quando faço sexo com outras pessoas não sinto culpa nenhuma. Nada. O problema é durante a masturbação. Adoro me masturbar e percebo que, quando me masturbo, fico geralmente mais feliz. Mas sinto uma culpa muito grande.

Não sou uma pessoa cheia de pudores ou envergonhada. Ao contrário, sou bem safada e não tenho problema nenhum com isso, me masturbo na frente de outras pessoas, me insinuo, assisto (muito) pornô, inclusive sozinha. Masturbo-me muito nessas ocasiões também. Não estou namorando, mas isso não é problema. Não me importo em fazer sexo só pelo sexo, tendo como único objetivo o prazer do momento, entende? E é aí que tá a contradição da coisa. A única, de todas essas situações, que me faz sentir essa culpa, é quando me masturbo sozinha. Não durante o ato, mas depois que termino.

Apesar de sentir todos os benefícios que um bom orgasmo me proporciona, fica uma sensação estranha de que não deveria ter feito. Eu sei que é uma situação difícil, principalmente por saber que é só loucura da minha cabeça (que na maior parte do tempo é bem suja). Enfim, não espero que você resolva o meu problema. Só quero uma dica, um conselho de alguém mais experiente que eu, que talvez já tenha passado por uma situação parecida ou que conheça alguém que passou, só pra me ajudar a desencanar ou viver melhor com esse sentimento estranho e contraditório e que incomoda muito.

Talvez seja uma culpa religiosa, coisa que minha mãe (que teve uma criação severa) conseguiu incutir em mim. Esse deve ser um assunto recorrente nos emails em que recebe. Mas nunca vi no seu blog algo que respondesse aos meus questionamentos. Qual é o problema em se masturbar? Existe algum?

Queria apenas uma resposta que tire de mim essa culpa. Se puder me ajudar, vou ficar muito feliz! Quero poder me masturbar como fazia aos seis anos, brincando de cavalinho, sem que ninguém percebesse o que eu realmente fazia. Sem pudor, sem me sentir culpada por fazer uma coisa que quando eu era criança era absolutamente normal. Me ajuda, por favor!

Aguardo uma resposta e agradeço a atenção.
Muitos beijos!
A.

 

 

Oi A.,

Me ama? Ouwnm (ruborizei), que linda! Enquanto lia o seu email, fiquei rindo sozinha. Qual seria o problema de se dar prazer? Você imagina Deus ao seu lado, te olhando, enquanto isso? Será que ele fica excitado? Ahahaha.

Para, bonita! Não tem problema nenhum. Pelo contrário. É importante você adquirir intimidade com seu corpo, conhecer a forma como ele reage a cada estímulo. Descobrir o que é mais gostoso de fazer, de receber. Vai ajudar no seu desempenho durante o sexo. Além de ser fundamental para aqueles momentos em que é preciso extravasar. Tranquiliza.

A culpa que você sente foi construída socialmente. O catolicismo e o patriarcado cercearam as liberdades individuais e em especial a sexualidade das pessoas, durante séculos. Consolidou-se a noção de pecado, apontando o ato sexual como algo sujo, imundo. O mérito estaria em renunciar aos prazeres da carne. Para as mulheres, tal repressão foi ainda maior, pois a virgindade era dita como uma glória feminina – o próprio corpo da mulher era apontado como algo demoníaco. Isso foi de tal forma apregoado que certos conceitos ultrapassados persistem até hoje.

Se você ler O Livro do Amor, da psicanalista Regina Navarro Lins, deve perceber como o sexo e as mulheres foram tratados ao longo da história e de onde vem essa culpa que você sente. E perceber que não há fundamento em reprimir seu desejo sexual e algo tão inofensivo como o gesto de se masturbar sozinha.

A moral e os pudores surgem conscientemente com o amadurecimento. É o que provoca essa distinção de que você narrou: como, na infância, sentimos prazer inofensivamente; e como nos obrigamos a coibir nossos instintos quando adultos. Isso não de todo ruim, pois é necessário saber a ocasião em que podemos atiçar nossas volições sexuais. Afinal, convivemos socialmente.

Às vezes, mesmo sozinha, fico perturbada com algumas de minhas fantasias durante a masturbação. Não necessariamente uma coisa religiosa, mas a sensação de ter fantasiado muito além do que posso ou até quero realizar. Mas quem não tem ao menos uma fantasia bizarra, não é? Dizem que, de perto, ninguém é normal. Acontece que quando estamos a sós, entre quatro paredes, sem fazer mal algum, ninguém pode nos julgar.

Relaxa e goza.
Beijos!

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