A manteiga derretida endureceu


A manteiga derretida endureceu

Sentada no ônibus, cedo pela manhã, a caminho do trabalho, ponho no iPhone uma música dessas de cinema, que sempre me faz visualizar cenas do passado, como em um filme na minha mente. Sinto umedecer o canto dos olhos com lágrimas que não deixarei cair.

Lembro que faz mais de um ano que fiquei solteira. Sinto apertar por dentro uma vontade de me apaixonar de novo. Quero a sensação do meu coração batendo descontroladamente acelerado, a cada vez que penso em determinada pessoa. Frio na barriga a cada mensagem ou ligação que recebo. Pernas bambas, só de avistar um sorriso.

Maturidade é decepcionante. A vida me tornou fria e calculista. Hoje racionalizo meus relacionamentos, como produtos de fórmulas químicas. Quase consigo visualizar as moléculas se agrupando em formato de hormônios, para ativar sentimentos distintos em cada parte do meu cérebro. As pulsações do meu corpo são contabilizadas e medidas, matematicamente.

A inocência de acreditar no que ouço chegou ao fim. Já se foi o impulso da entrega. Questiono o que me é dito como em um inquérito policial. Cada gesto, cada palavra, só tem valor se acompanhado de uma prova contundente. Incrédula.

Vejo os homens tão acostumados a proferir mentiras às mulheres com que se envolvem. Acho que eles nem sabem mais ser sinceros num relacionamento a dois. Percebo minha estupidez, sempre que continuo acreditando ingenuamente nas baboseiras que me são ditas pelos rapazes que conheço. Sem entender porque insistem em criar ilusões sem sentido. E me fazem sentir, de novo, uma palhaça.

Volto a encontrar caras comprometidos afim de uma noite comigo, certos de que não vou atormentá-los com paixonites grudentas. E me convenço de que cada um deles quer, na realidade, ao seu lado, como namorada, uma mulher para fazer de otária. Cheios de artimanhas para conseguir enganá-las e aprontarem escondidos, por aí, com os amigos e outras mulheres que despertem seu interesse. Não sei a troco de quê enganam aquelas que dizem amar, dessa forma. Talvez da ilusão de que elas ofereçam a eles a exclusividade que não são capazes de lhes proporcionar.

Não ligo de me envolver com ninguém que queira de mim apenas algumas noites de sexo, sem a expectativa de algo mais sério, mais especial – um relacionamento que dure. Importo-me, sim, de ouvir mentiras. Qualquer que seja a pessoa que vai passar momentos ao meu lado, é preciso que seja confiável. Coisa rara. Minha crença nos homens acabou.

Sinto que sou uma pedra. E sei que ainda sou feita de manteiga. Acontece que, hoje, não basta qualquer calorzinho para me derreter. Vou mensurar com exatidão a temperatura e a altura da chama que vier me aquecer, afim de saber que é o suficiente para alcançar o ponto de fusão da minha substância.

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