A menina que só pensava em namorar


A menina que só pensava em namorar

Na infância, quando não queria sair para a rua e brincar com a turma, eu me fechava em casa e passava tardes inteiras sentada ao lado do aparelho de som, na sala de casa, com o fone de ouvido, escutando a coleção de fitas cassete dos meus pais. O momento mais especial do ritual era quando chegava a vez da minha música favorita, no K-7 da sensual (e, por isso, admirada) Marisa Monte: O Xote das Meninas.

“Ela só quer, só pensa em namorar”, canta a diva da boca vermelha. Eu dançava com a cabeça e cantarolava junto, ao me embalar naquela melodia. Depois ainda rebobinava para apertar o play de novo. Conseguia me ver na letra daquela música.

Pareceu uma eternidade, mas demorou pouca coisa até me tornar pré-adolescente e viver o primeiro namorico, durante uma colônia de férias. Nessa época, todas brincadeiras e assuntos da molecada giravam em torno de pegação. Primeiro, surgiram os lúdicos joguinhos de beijar na boca – verdade ou consequência, salada mista -, que logo deram lugar à música lenta nas festas americanas e escapulidas para locais escuros onde os breves casais pudessem ficar.

Eu, que sempre fui docemente apelidada de “Dragão” no primário, já não tinha a autoestima lá essas coisas. Mas também não me privava de tentar experimentar o gosto dos garotos mais bonitos da turma. E conseguia. Só que bastou eu beijar dois da mesma galera para me inventarem outro apelido, “Galinha”.

Os garotos falavam que eu deixava passar a mão. E deixava mesmo, achava aquilo bem divertido. Nunca entenderam que não eram todos que podiam brincar livremente com o meu corpinho – só os que eu mais gostava.

Ao completar 15 anos, achei que era hora de experimentar o tal do sexo, que tanto as pessoas falam. Procurei o rapaz mais experiente que conhecia para me inaugurar e gostei da forma selvagem como ele pegava meu corpo. Passei a dar preferência a rapazes mais velhos, namorei alguns. Com um deles, foram quatro anos de romance. Até entrar na faculdade e me ver adulta.

Só então descobri que posso conquistar o homem que eu quiser. Nem que seja só por uma noite. Acho que eles gostam do meu jeito travesso de quem só quer aprontar. Quando algum me encanta, logo tomo inciativa. Olho, encaro mesmo. Aproximo-me dele com um sorriso perverso, puxo assunto. Tem dias que nem precisa tanto. Quando saio de casa me sentindo bonita, até meu andar se torna mais confiante e atraio olhares sem fazer muita força.

O que não quer dizer que todos fiquem loucos por mim. Longe disso. Apenas consigo chamar atenção dos que quero com meus modos de menina sapeca e desencanada. Às vezes, eles só querem sexo. Às vezes, eu só quero sexo. Às vezes, sexo se torna uma motivação para algo a mais.

Foi assim quando me apaixonei por um amigo da galera da faculdade e decidi casar. Vivi por cinco anos junto ao homem que me ensinou mais sobre amor do que qualquer outro. Até perceber que nossos planos de vida eram tão distintos, que chegavam a ser incompatíveis. Foi assim quando, tempos depois, dormi uma noite com um garoto da balada que, em poucos dias, veio me pedir em namoro. Infelizmente, a gente também queria coisas bem diferentes. Felizmente, depois de separados, viramos grandes amigos. E até hoje ele me agradece por mudar sua perspectiva sobre relacionamentos.

Amadureci e hoje não penso mais em namorar. Isso é fácil demais, basta encontrar outra pessoa afim de namoro – o que existe aos montes por aí. Desejo, sim, me apaixonar de novo. Encontrar alguém que te faça desejar e se empenhar a ser melhor a cada dia. Sentir o coração palpitar só de pensar no outro. Com o tempo, se encantar pelas pessoas tornou-se cada vez mais difícil. Mas acho que é essa a graça de se envolver em um romance.

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