A sociedade não é


A sociedade não é

“A sociedade é assim”. O tipo de argumento que mais leio na internet é sobre características predefinidas da sociedade. Por vezes, fazem questão de piorar tudo com a afirmação torta: “Não tem como negar que a sociedade é assim”. Ou assado?

Rejeito essa linha de raciocínio porque realmente não me balizo pelo que é “comum” – isso é muito relativo. Basta andar um pouco, que a realidade muda.

Não vivo nessa sociedade que pintam por aí, não. E tenho como negar qualquer definição monolítica sobre o status social. A começar sobre a moral da sociedade. O filósofo e jurista Mário Cortella descreve de forma bem simples o que significa moral, amoral e imoral:

Amoral é alguém incapaz de decidir, escolher e julgar. Uma criança até determinada idade; um idoso com síndrome de Alzheimer, um demente social… Esses são amorais.

Uma pessoa de trinta anos, saudável e consciente, amoral, não existe. Moral é a prática de uma ética. Ética é a concepção dos princípios que eu escolho, Moral é a sua prática.

Eu tenho um princípio ético: não me apoderar do que não me pertence. Meu comportamento moral é se eu roubo ou não. O princípio se traduz numa moral. Uma pessoa amoral é alguém incapaz de decidir, julgar e avaliar. É o que a lei chama de “incapaz”.

Quem é imoral? Existem pessoas que consideram, por exemplo, o beijo entre dois homens imoral. Isso depende da referência de moral da sociedade e da época relacionadas.

Se eu fosse um grego clássico: Sócrates, o principal pensador desse período, era casado com Xantipa e tinha um amado, Alcebíades, um jovem general de 27 anos. Aliás, quando Sócrates morre, está nos braços de Alcebíades. – Xantipa entende isso, lá no século IV aC, como uma coisa normal daquela cultura. Hoje, talvez isso não seria entendido como uma coisa tão perturbadora, mas há 30 anos seria inadmissível.

Isso não quer dizer que a ética é relativa. A moral é que é relativa. A ética pertence a uma época e a um grupo, mas ela traz sempre a tentativa de ser universal. Como as cartas dos Direitos Humanos: há 40 anos nós estamos discutindo essas questões de 1968. E há 60 anos estamos discutindo a “Declaração Universal dos Direitos do Homem”. São tentativas de se chegar a uma ética universal, comum a todos os seres humanos: “toda criança tem que ser respeitada, não pode haver discriminação entre os povos”, etc, etc… Esses princípios devem ser preservados? Se a resposta for positiva, não podemos dizer que a ética é uma coisa relativa. Existe uma força muito maior e desconhecida que nos diz que as crianças devem ser respeitadas, que o preconceito não deve ser tolerado e outros princípios básicos como esses.

Como isso se traduz na prática? Esta é uma outra percepção.

Existem tantas regras, elas são fluidas. A própria noção de moral varia no tempo e espaço. O argumento de que “é assim que funciona a nossa sociedade” é fraco demais para mim. Não aceito imposição de paradigmas de qualquer sorte.

A sociedade como eu conheço é plural. Somos nós: você, aquele senhor seu vizinho, o mendigo da rua, a stripper da boate, índios, negros, nazistas, travestis. Cada um pensando com a própria cabeça, segundo os conceitos que formula ao longo da vida – que podem ser precisos, ou totalmente distorcidos, como a mesma definição do que seja a sociedade.

Ela, a sociedade, não te controla. Alguns até tentam, mas só quem detém de fato o controle sobre a vida das coletividades na modernidade é o Estado, com suas leis. Não vejo necessidade de parecer qualquer coisa para a sociedade ver. Seja como for, cada um encontra um espacinho nesse enorme mosaico da sociedade, para se encaixar.

E sem essa de que “a sociedade não está preparada”. Sem o mínimo esforço, ninguém vai se preparar para nada, mesmo. Mas, quando fazemos algum barulho, impomos pressão, sacodimos as pessoas – coisas começam a acontecer. Então a sociedade aprende a lidar com o beijo gay na novela, a mulher presidente, o topless na praia. É, esse último ainda não foi absorvido pela cultura brasileira (tão limitada, no meu ver). Para ver mulheres deitadas na areia sem a parte de cima do biquíni, é preciso viajar às praias européias – onde a sexualidade não é tão ofensiva, o feminismo é mais introjetado, lida-se melhor com as diferenças sociais.

A evolução social é fluida, acontece dia após dia – ontem, hoje e amanhã. A sociedade não é. A sociedade talvez esteja. Ou não.

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