Amores da minha vida


Amores da minha vida

Paixão é coisa besta. Não saberia afirmar, precisamente, quantas vezes a senti pulsar dentro de mim. É fácil demais se entregar, diante de um conquistador. Difícil é aprender a conquistar – fazer todas as células de outro corpo vibrarem em frequência acelerada. Felizmente, passei da fase imatura de me apaixonar a cada esquina. Hoje é preciso muito mais que um belo rapaz galanteador para mexer com meus sentimentos.

Detesto ficar apaixonada. A vista ofusca e passo a ver a realidade de maneira totalmente distorcida. Turva. Sinto-me fraca, boba, vulnerável, louca. Começo a pensar em abrir todas as condições para estar com a pessoa. Cogito me permitir de tudo para permanecer ao seu lado.

É sempre uma surpresa. De repente, vejo meu corpo entrar em sintonia inédita diante de alguém. Começo a experimentar um aumento dos batimentos cardíacos, a cada contato. Suspiros incontrolados, declarações ensaiadas, coraçõezinhos desenhados num pedaço de papel. Paixão é uma chama que incendeia, e pode apagar na mesma rapidez em que surgiu. Basta não ser alimentada.

Amor é outra coisa. Os dedos de uma mão ultrapassam o número de vezes que acreditei amar um parceiro. A primeira vez que me vi vivenciando um grande amor, eu era ainda adolescente. E não era qualquer amorzinho, não. Eu dizia a ele que era o “amor da minha vida”. E acreditava nisso. Para mim, viveríamos felizes para sempre. Pensei assim durante os quatro anos que passamos um na companhia do outro. Até perceber que nossas juras de amor eterno tinham chegado ao fim – eu não sentia mais o mesmo.

Pouco depois, outra paixão arrebatadora foi correspondida. Um novo namoro começou. De tão acaloradas que foram nossas declarações, mais uma vez, achei estar diante do “amor da minha vida” (exatamente da mesma forma que aconteceria na relação seguinte). Arranjamos para a gente uma casa com cachorro e pé de acerola. Vivemos momentos incríveis, inesquecíveis. Até o dia no qual as cobranças se tornaram tão altas, que as brigas passaram a ser insuportáveis.

Foi ele quem me mostrou que eu podia ser amada do jeito que sou. Sem precisar mudar. Sem me adequar a padrões externos. Sem a ilusão de possuir alguém com exclusividade. Quando assumo um compromisso com alguém, prefiro acreditar que o outro está tão comprometido quanto eu em fazer as coisas darem certo entre nós. Empenho-me numa busca diária por harmonia – e espero o mesmo em troca. É necessário se dedicar, mas dedicação exclusiva cansa qualquer um. No meu ver, mesmo que o meu parceiro curta tudo que quiser, com quem tiver vontade, ele vai permanecer ao meu lado, pois seus sentimentos são sinceros. Coisa que não se acha em qualquer canto por aí.

A proibição não impede ninguém de se apaixonar por outra pessoa. No dia em que isso acontecer – e se a paixão persistir a ponto de suplantar um amor – é porque as coisas entre o casal já não andam tão bem, mesmo. Relacionamento não é prisão. No dia em que o parceiro desejar seguir um rumo distinto; impedi-lo, aprisioná-lo, só vai piorar a relação. Não vale a pena.

Amor, para mim, é um sentimento perene que persiste ao longo do tempo. Deve sofrer mutações, diante de mudanças no curso da história a dois. Difícil é ele acabar.

Acho que nunca deixei de amar meus ex-namorados. Ainda sinto um sentimento especial me arrebatar, todas as vezes que penso no que construímos juntos – e conquistamos e aprendemos, durante os anos em que vivemos lado a lado. O amor que carrego por eles, hoje em dia, é diferente do que já foi. Mas existe.

Paixão é magia, quase um número de ilusionismo. Amor é trabalho braçal, transpiração. Amar é transformador.

 

Moral da história: Não acredito mais que eu ainda vá encontrar o “amor da minha vida”. Prefiro crer que conseguirei viver um novo amor – capaz de entrar no rol dos amores da minha vida.

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