Assuma riscos – a lição de Sara Winter


Assuma riscos – a lição de Sara Winter

A estudante de cinema Sara Winter tem apenas 19 anos, mas já está fazendo história no Brasil. Neste ano, ela assumiu a vanguarda como primeira militante brasileira do grupo ativista FEMEN. A polêmica organização feminista teve origem na Ucrânia, em 2008, e hoje conta com mulheres dispostas a fazer topless durante manifestações políticas, em diversos países – Estados Unidos, Suíça, Itália, França, Bulgária, Holanda, Tunísia – e agora também em território nacional. A tática de mostrar os seios durante os protestos tem se mostrado eficiente, ao chamar cada vez mais a atenção da imprensa internacional.

O FEMEN é uma das organizações pioneiras do movimento social conhecido como neofeminismo, do qual faz parte também a Marcha das Vadias e a recém-organizada Marcha das Mulheres – ocorrida durante a conferência Rio+20. As ações dessas jovens ativistas têm contribuído para derrubar paradigmas e mudar o a imagem caricata das tradicionais feministas, que se mostravam sérias e nada erotizadas. O que elas tentam pregar é que não apenas as mulheres recatadas e santinhas merecem respeito. Para isso, usam seu corpo como bandeira e arma de protesto. Pôr os seios de fora é mais uma maneira de tentar se colocar em pé de igualdade com os homens e questionar: por que nossa liberdade é, ainda, tão chocante?

A mensagem das neofeministas ainda não é bem compreendida nas diversas camadas da sociedade. Porém, ao gerar polêmica, elas estão sendo capazes de agendar, na mídia, os temas pelos quais lutam. E, consequentemente, entrar nos assuntos da ordem do dia.


Ontem, Sara Winter foi detida por policiais em Kiev, na Ucrânia. Quase foi presa. Era o seu primeiro dia em solo europeu e também foi o primeiro protesto de que participou, como parte de um treinamento intensivo com as dirigentes do FEMEN. Ela e a ucraniana Sacha manifestaram-se durante um jogo da Eurocopa, empunhando cartazes contra o turismo sexual – problema social comum entre o Brasil e alguns países do leste da Europa. Sara Winter se arriscou. E assim ganhou a mídia internacional. Dessa forma, seus ideais se fortalecem e o movimento que ela quer encabeçar no Brasil adquire visibilidade.

Conheci a militante durante a Marcha das Vadias e nossas imagens lado a lado já repercutiram pelo mundo. Ontem, a foto acima, que tiramos juntas durante a manifestação, apareceu em uma matéria do Fantástico. Não é à toa que fiz questão de ficar junto a ela, pegar seus contatos e oferecer ajuda em sua empreitada. Apesar de gostar de fazer do meu corpo objeto de desejo, quero também usá-lo como instrumento político e lutar contra aquilo que me revolta.

Enquanto faltar igualdade de oportunidades entre homens e mulheres, o feminismo se mostra necessário. A sociedade é cruel com o sexo feminino. Só as mulheres sabem o tanto que se exige de nós. Ser belas e bem sucedidas, inteligentes e responsáveis, cuidar dos filhos e da casa – além de prover o próprio sustento (e, muitas vezes, de toda a família). Ou seja, além de tudo que se demanda dos homens, sobre as mulheres recaem atribuições e responsabilidades a mais. As pesquisas comprovam: nos mesmos cargos, as mulheres continuam ganhando menos, apesar de se empenharem em mais anos de estudo. E isso não é o pior. É massacrante a agressão que sofremos ao expressar nosso desejo sexual, mostrar nosso corpo. A repressão da sexualidade feminina é um processo social de cunho psicanalítico, ligado ao próprio desenvolvimento humano. Assim, o machismo continua se fazendo presente, até mesmo nas mulheres.

Revista Isto É – 27/06/2012

Situação de risco

Diariamente, assumo riscos ao me expor por aqui: de ser mal interpretada por quem me lê; de receber ofensas escritas por pessoas que nem conheço; de sofrer assédio de quem acha que me envolverei com qualquer um. Sabia que seria assim, ao me permitir expressar minha libido, sem censuras. E continuo ouvindo o mesmo que escutei a vida inteira dos meus pais e avós: “Não se exponha! Juízo. Tome cuidado”.

Sempre dei atenção à sabedoria dos mais velhos, principalmente aqueles que me querem bem. Mas decidi tomar as rédeas do rumo da minha existência. Permiti-me arriscar. Orgulho-me dos riscos que corri na vida, até aqueles em que fracassei. E não estou pactuando com o chavão que diz “Não me arrependo de nada do que fiz, só do que deixei de fazer”. Bobagem. Não tenho vergonha de admitir que senti arrependimento. Várias vezes.

Quando menina, aos 15, com meu primeiro namorado, não tive jogo de cintura para exigir camisinha na hora H. Pura ingenuidade. Antes sequer de começar a tomar pílula e sem ter qualquer comprovação das condições de saúde do garoto (que, cinco anos mais velho, por acaso, já era pai), arrisquei-me sem necessidade. Podia ter tido uma gravidez precoce e indesejada, ou mesmo contrair DSTs – por estupidez. E nem vou dizer que era ignorância, porque tive boa educação. Não sofri nada, mas me arrependo disso até hoje.

Na medida em que fui crescendo, passei a ser mais racional no momento de assumir riscos. Eu poderia ter me acomodado no meu primeiro emprego público, quando me tornei assessora de imprensa da presidência de uma instituição do governo. Mas quis correr o risco de me mudar de cidade e assumir a vaga de outro concurso público, pelo qual batalhei para ser aprovada. São Paulo me abriu diversas outras oportunidades. Quando me mudei, estava casada com um homem que pactuava com meus ideais e concepções de vida. Um ano depois, arrisquei-me a enfrentar um processo de separação, porque o casamento não funcionava mais. A duras penas, perdi um marido – que hoje se tornou meu melhor amigo.

Mais tarde, depois de passar dois anos infeliz em um trabalho que me sugava (eu fazia clipping durante a madrugada), pedi demissão de novo. Dessa vez, em troca de um contrato temporário – que depois não se renovou, a despeito do que era esperado. Fiquei desempregada. E sofri. E ainda sofro com sérias dificuldades financeiras. Mas sei que sem os riscos e sem as perdas, não teria me permitido viver tantas situações novas e aprender. A vida é um constante aprendizado.

Atualmente, decidi pôr a cara para bater. A exposição a que me submeto aqui faz parte de todo o processo de me aprofundar no comportamento sexual da nossa geração. Partindo do micro: eu e minha vidinha. Não que eu seja algum exemplo. Vejo-me como um tipo de anti-herói, aos expor meus erros e lições de vida, de onde outros possam tirar também aprendizados. Sem risco, não há ganhos.


Ontem, Sara Winter se arriscou. E me inspirou. Quero, ao lado dela, lutar por causas políticas. Se você quiser também, filie-se ao FEMEN Br – femenbrazil@gmail.com

 

Fotos: Thiago Marzano / Reuters

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