Como arruinar um namoro


Como arruinar um namoro

Difícil lidar com a frustração do fim de uma relação amorosa. Aceitar que aqueles momentos singulares e especiais a dois deixaram de existir. Não há mais confissões compartilhadas, todos os sonhos projetados no outro caem por terra. Acabou.

Não dá para visualizar o instante exato em que o relacionamento deixa de funcionar. É um processo. Demora até perceber que as coisas não são mais como antes. Conformar-se com a perda de algo que lhe era tão caro – seu amor. Assumir a derrota. O erro clássico, ao final de um namoro, é insistir na sua continuidade até magoar o outro e a si próprio, irremediavelmente.

Claro que, ao fim do meu primeiro relacionamento sério, eu não poderia fazer diferente. Comecei a alimentar meu amor pelo Binho bem cedo, aos 16 anos. Meu vigézimo aniversário se aproximava e a gente continuava juntos. Mal conseguia me imaginar sem ele ali, ao meu lado. Principalmente naquela época em que, ainda estudante, eu já tinha que batalhar para manter a casa onde morava sozinha. Por frequentar uma universidade pública, contei com apoio financeiro da minha mãe, que vivia em outra cidade. Mesmo assim, sentia a cobrança da chegada da maioridade – deixar de ser menina e dar conta de mim. O peso de uma vida adulta.

Minha realidade começava a mudar. A primeira vez em que expus ao meu namorado como estava insatisfeita com o nosso modelo de relação, já foi suficientemente traumática. Propus um relacionamento aberto, como vi amigas minhas experimentarem com sucesso. O rapaz simplesmente demonstrou aversão a todas as minhas ideias. Inaceitável para ele que eu quisesse viver novas experiências. Parecia indiferente o fato de chegar ao auge da minha juventude. Ele torcia o nariz e resmungava, inconformado. Repetia, bufando:
– Você quer transformar sua vida numa savana sexual!

Para Binho, era um absurdo sem tamanho eu assumir sentir desejo por outras pessoas. Não importava o fato de ter me dedicado exclusivamente ao garoto e a nossa relação, por mais de três anos. Nossa ligação era mesmo muito forte. Então achei que o amor pelo meu namorado era maior que qualquer necessidade ou vontade que pudesse sentir. Ledo engano.

Pareceu impossível controlar aquele fogo nas entranhas, que Binho nem se empenhava em aplacar. Perceber ao meu redor pessoas dispostas a me satisfazer. Afim de incitar desejos, loucos para aprontar comigo. Uma contradição de sentimentos – oposição entre instinto e culpa – que minha cabeça mal dava conta de processar. Trair meu namorado me pareceu a única solução para aquele dilema.

Como, com toda a sinceridade que me é inerente, fiz para sustentar mentiras? Não dei conta. Depois de transar com dois caras diferentes, acabei contando tudo para ele. O magoei ainda mais. Tive que lidar com o sofrido término de uma relação que sempre representou tanto para mim. Foi como perder o chão.

O pior é que não acaba aí. Antes fosse. Meses depois, Binho percebeu que eu ainda guardava sentimentos especiais por ele. Então, dispôs-se a aceitar minhas regras, para me ter de volta. Disse que, se assim o queria, teríamos um relacionamento aberto. Tudo para continuarmos juntos.

A dinâmica da coisa corria sem grandes problemas. Ele sempre gostou de sair com seus brothers, e nunca se opôs a me deixar solta nas baladas com as amigas – já que o garoto não curtia música eletrônica, nem gostava de dançar. Mas seu viés conservador não o deixava viver feliz, pensando que eu poderia estar com outra pessoa. O rapaz entrou numa paranóia.

Astuto, vivia jogando verde, afim de descobrir o que eu andava aprontando. Até que um dia dei com a língua nos dentes e o contei sobre um beijo que rolou com um amigo dele. Um beijinho de nada, que não significou grande coisa, numa noite em que o cara me encurralou bêbada. Enfim, entendo que eles eram grandes amigos e o gesto foi no mínimo sórdido. Para Binho, parecia o fim do mundo.

Outra crise. Ameaças. Sofrimento. Inconformada com a iminência de perder mais uma vez meu companheiro, afim de obter seu perdão, prometi me controlar e voltar à monogamia. Mas é óbvio que não dei conta de domar os hormônios fora de controle, em meu corpo. Certo dia, encontrei em um antigo amigo o amante ideal. Maurão passava as manhãs de bobeira em seu apartamento. Era eu quem o acordava quase todos os dias, de minissaia, depois de fugir da sala de aula.

Enquanto Binho insistia em me podar, Maurão incentivava minha depravação. Seu olhar perverso me incitava. Suas taras insaciáveis alimentavam minha safadeza. Parecia que ele não cansava nunca. Mostrava-se disposto a realizar todas as minhas fantasias. Foi ele quem protagonizou meu primeiro ménage. Agarrou na minha frente uma amiga sua e levou-me com ela para uma rave, num sítio afastado. Ficamos tão loucos nesse dia, que só interrompemos o sexo, bem depois do amanhecer, porque eu precisava voltar para casa e encontrar meu namorado.

A essa altura, a culpa já me corroía por dentro. Ao mesmo tempo, enfrentar outro término me assombrava. Ser sincera novamente, também não me parecia nada razoável. Só uma dose de sofrimento ainda maior foi capaz de dar cabo naquela situação.

Certa dia, ao cair da tarde, Binho me ligou após o trabalho, avisando que iria dormir comigo. Ele passava mais noites na minha casa do que onde ele morava. Respondi que eu tinha um compromisso logo cedo e pedi para me deixar ficar sozinha, daquela vez. Tudo mentira. Na mesma noite, saí com o Maurão e uma amiga. Os dois foram dormir na minha cama e nem chegou a rolar sexo a três. Acontece que meu namorado tinha a chave do meu apartamento. Resolveu aparecer pela manhã, antes que eu pudesse acordar. Ao ouvir o barulho da porta, levantei num sobressalto, sem saber o que dizer. Não o deixei passar da sala. Não precisou. As roupas do Maurão estavam sobre o meu sofá. Ele viu. E foi embora. E me odiou por aquela cena ridícula. Eu mesma não consegui me perdoar por fazê-lo passar por aquilo. Fiquei me sentindo péssima, por dias.


Foi preciso tudo isso para eu me tocar como era estúpido continuarmos juntos. A gente não daria mais certo. Nunca mais.

Binho não desistiu de mim. Depois disso, ainda me procurou – disposto a esquecer a história toda, para me ter de volta. Quando isso aconteceu, eu já tinha até enjoado do Maurão. Meu amigo era tão tosco, que se tornava cada dia mais asqueroso. Deu tempo de me interessar em outro rapaz, que surgiu com mimos e um frescor de novidade. Finalmente, tive a lucidez de dizer não. Já bastava de tanta mágoa. Certamente, seria inútil e sofrido insistir mais uma vez.

Fim.

 

Epílogo:

Casei-me com outro homem, mudei de cidade e perdi completamente o contato com meu ex namorado. Soube que, anos depois, ele se afundou no crack e se desfez do contato social com nossos amigos. Ontem, por acaso, ele ressurgiu das cinzas e me adicionou no Facebook. Tentei conversar com ele e descobri que o rapaz ainda sente rancor por mim. Já se vão oito anos e ainda carrego sentimento de culpa por toda essa história.

Não cometa os mesmos erros que eu. É aterrador.

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