Do Leitor: Blink


Do Leitor: Blink

“Você está ocupada amanhã?”. Ao ouvir isso, já percebi que algo não ia bem. “Precisava de uma voz amiga”. Ihhh… depois de mais algumas mensagens trocadas, mando: “Combinemos a hora e o local. Nos vemos lá”.

E assim o fiz. E, de fato, ele não estava bem. O amigo gringo que conheci há quase quatro anos estava agora com ‘problemas matrimoniais’. A conversa foi progredindo e soube que a ‘lovely wife’, como ele mesmo dizia, estava vivendo um dilema: ou ele, ou um colega de trabalho, que havia se declarado alguns dias antes para ela. Ela talvez até já o tivesse traído. A mesma se via, de fato, confusa. Mas confusa por quê?!

Não posso mentir, nunca havia gostado muito dela. E mais: sempre tinha tido não uma queda, mas um tombo inteiro por ele. Aquela boca… putz, viajava milhares de quilômetros só pensando nela, enquanto vários arrepios subiam e desciam por todo o meu corpo.

Num seguinte momento, estávamos sentados, nos olhando, trocando impressões a mesa de um bar. Sabe-se lá como, a conversa chegou nos tópicos fetiches, coisas que excitavam um ou outro, e por aí vai. Sempre curti uma barba mal-feita roçando na nuca, nas orelhas… abri o jogo, e ele achou interessante. Umas duas horas depois repetiu a pergunta, como que para confirmar, e, desconfiada, me fiz de desentendida.

Algumas horas depois, fomos embora do bar para pegar um ônibus. Fazia tanto tempo que não nos víamos!…

Encostados no ponto, senti ele me olhando, intenso, mas preferi não retribuir o olhar, pois já sabia que iria corar. Ele perguntou algo, mas não consegui entender o quê. Pisquei devagar. E senti, então, seus lábios bem de leve no meu pescoço. Os arrepios correram mais rápido que eletricidade.  Ele, claro, foi direto na orelha – quem mandou entregar o ouro de bandeja? Mas não posso reclamar; não foi nessa que minha língua me traiu.

Eu, sabendo que daquele tombo não conseguiria escapar, paguei pra ver se ele iria me segurar. E ele segurou… me segurou forte nos seus braços, num abraço apertado, enquanto me beijava com vontade o pescoço, as orelhas, e a boca. E eu nada podia (ou sequer queria) fazer, além de aproveitar a queda livre.

Os beijos foram ficando, nem um pouco lentamente, absurdos demais para exibição pública. Chamamos um táxi, e fomos para sua casa. ‘The lovely wife was out of town’. Muita ousadia a nossa? Com certeza. Mas nada que naquele momento fizesse muita diferença.

Não conseguimos chegar ao quarto. No sofá embolamos braços, pernas e línguas. Fluía mais do que natural. Aquela noite me provou, por A mais B, que nem sempre a pressa é a inimiga da perfeição – ainda mais para alguém que agora tirava quase quatro anos de atraso.

Todas as fantasias construídas em todo aquele tempo se superaram entre aquelas almofadas, cuidadosamente selecionadas por ela. “Obrigada, eram muito confortáveis. Mas não mais que os braços do seu marido”, pensei.

Braços que me apertaram e me puxaram de todas as maneiras certas. Foi com carinho e tesão que beijou todo o meu corpo, das já ‘marcadas’ orelhas aos pés; aqueles lábios que me enlouqueciam só de imaginar não fizeram feio na realidade. Me perdi neles, entre beijos e mordidas.

O primeira vez foi mais do que surreal – e ainda assim foi apenas amostra do que seriam as próximas. Gozei e o fiz gozar, da maneira que achava que ele merecia, e da maneira que queria que ele lembrasse daquela noite, que para mim estava sendo memorável.

Tive o último orgasmo sentada ao seu colo, e ele foi marcado por um beijo, longo. Pisquei devagar. À minha frente, a rua. “Ãn?”, virando, agora, para o olhar nos olhos. E ele calmamente repetiu a pergunta.

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