Enamorada


Enamorada

Naquela quinta-feira, cheguei para trabalhar às nove da manhã. A jornada de trabalho como repórter de rua, na cobertura das eleições,  era intensa. Um ritmo tão frenético, impossível parar. Neste dia, havia várias agendas, em diferentes lugares. Quase não tive descanso, até o momento em que o serviço acabou, às dez da noite. O clima tinha esfriado e eu estava sem casaco. Peguei um ônibus com ar condicionado e fiquei me retorcendo de frio, na cadeira do coletivo. O trajeto de volta para casa durou mais de uma hora.

Ao descer no ponto de ônibus próximo de onde estou hospedada durante aquela temporada de trabalho no Rio, sinto-me arrasada, exausta, e ainda pensando nos dias seguintes, que seriam tão ou mais pesados. Decido não ir direto dormir. Eu precisava me entorpecer para relaxar a mente. Passo pela porta do Empório, tradicional bar de rock’n roll em Ipanema, um dos points mais badalados entre os gringos que chegam para curtir a capital carioca. Vejo o local cheio de gente, barulho – um frenesi. Assim que passo caminhando pela calçada, um loiro com cara de alemão já solta um “uau” bem alto, olhando-me com uma expressão de galanteio. Resolvo parar por ali e pedir uma cerveja, pensando em me infiltrar em alguma galera daquelas, para jogar papo fora.

Pego uma long neck no balcão e paro, de pé, na porta do bar, encostada na janela. Observo as pessoas nas ruas, a mente vai longe. Não se passam nem cinco minutos até ver, ao meu lado, um rapaz tirar a cabeça para fora da janela, debruçando-se sobre sua cadeira. Ele me encara, com um sorrisão.
– ¿Hablas español?
– Não… – respondo com um sorriso meigo.
– Speaks english? – insiste o garoto.
– Yes, I do.

O bonito salta para fora do bar, pela janela mesmo, e se apresenta. Juan Márquez é um argentino um ruivo de lindos olhos profundos, de um verde claro, da cor do mar. Cabelo bagunçado, rosto anguloso, barba por fazer. Veste uma camisa social listrada, com os botões de cima abertos, sob uma jaqueta grossa estilo colegial. Mantém aquele sorriso encantador, enquanto a conversa flui naturalmente. Ele conta que tem um ano a menos que eu e me dá um cartão da sua companhia, no qual está escrito “diretor”. Decido convidá-lo para ir comigo até a praia, pois queria ouvir o barulho das ondas e sentir o vento balançando meus cabelos. Minutos depois, sentados nas cadeiras de plástico de um quiosque no calçadão, à beira mar, já estou fazendo charme, reclamando de frio, quase que o convocando a se aproximar. Ele me abraça, me dá um cheiro no pescoço, pousa uma de suas mãos em minha barriga e desliza a outra sobre minha nuca. Seguro firme nos seus braços e sinto seus músculos enrijecidos. Suspiro fundo, repetidas vezes. Ficamos um tempo trocando carícias. Abro minha camisa e deixo parte do meu seio aparecer, para provocá-lo. Tento beijá-lo, mas o rapaz se retém e diz que há pessoas nos olhando.

Falo sobre a minha rotina de trabalho e me queixo de uma dorzinha nas costas. Juan oferece uma massagem, que ajuda a relaxar os ombros, naquele momento. Em pouco tempo, nos levantamos das cadeiras e peço para ele me acompanhar até a casa de parentes, onde estou hospedada. Digo que tenho que dormir, pois preciso trabalhar no dia seguinte. Caminhamos abraçados por alguns quarteirões, até a porta da minha hospedaria. Ele me pede email e telefone, diz que gostaria de me rever durante sua estadia no Rio de Janeiro. Ainda estou na dúvida se sentirei seu gosto, mas o garoto enfim me dá um demorado beijo de despedida. Aquele momento é tão gostoso, que peço para ele me acompanhar até uma mureta ali perto, onde sento metade do bumbum e o abraço, para continuar a tocar os lábios no dele.

Ao percorrer meus dedos por seus peitoral, sinto a rigidez dos seus músculos e um calor aconchegante. Maravilhosa a sensação de ser envolvida naqueles braços. Acaricio seus cabelos, deito minha cabeça sobre seus ombros. Respiro profundamente e sinto toda a superfície do meu corpo arrepiar. Uma atração, uma sinergia que há tempos eu não experimentava, com ninguém. Falamos todo o tempo em inglês, mas ele se tornava mais sedutor, ao proferir algumas frases em castelhano.
– Eres la chica mas guapa que yo he conocido en Brasil – diz, enquanto me hipnotiza com seus olhos. – Usted me encanta. Tus ojos, tu sorriso. Muy hermosa.

Difícil me desvencilhar daquela sensação fabulosa. A intensidade dos beijos aumenta, tiro meu sutiã. Ao sentir o volume das suas pernas apertar minha virilha, levanto a saia e abro um pouco as pernas, para roçar a calcinha em sua calça jeans. Gemo baixinho e aperto com a mão, de leve, seu pau enrijecido – o bastante para sentir que era grande o suficiente para me satisfazer, mas nem tanto, a ponto de me machucar. Ele propõe de irmos juntos a um hotel. Respondo que não teria objeção de ir a qualquer lugar com ele, mas no dia seguinte, após meu trabalho. Estava cansada demais para estender aquela noite. Nos despedimos e entro para deitar em minha cama. Estou em estado de êxtase, sem acreditar na surpresa que o destino me reservara, naquele dia. Suspiro sem parar, involuntariamente. Adormeço afim de sonhar com um romance argentino.

Assim que acordo, deparo-me com um email surpreendente. O assunto dizia: “Hola hermosa“. Ele começava afirmando novamente que eu era a garota mais bonita que ele havia visto em terras tupiniquins. Tão difícil acreditar nisso, quanto no convite que ele me faz em seguida: deseja deixar seu hostel e me chama para me hospedar em um quarto de hotel com ele, e passarmos o fim de semana juntos. Meu coração bate acelerado, enquanto leio aquela mensagem várias vezes, ainda incrédula. A essa altura, eu já havia dado uma de stalker e vasculhado a vida do rapaz na internet – o suficiente para saber que ele não era procurado pela polícia  como serial killer, nem havia mentido sobre qualquer coisa para mim.

Demoro um pouco a responder, pois ainda estou muito confusa, naquela manhã. Saio para uma sessão no osteopata, afim de melhorar a dor que sinto nas costas. Depois, vou de metrô, a caminho de uma reunião de uma nova proposta de trabalho na Tijuca. Respondo com um monte de erros de inglês que ele parecia um sonho e quero poder realizar todos os seus desejos, mas receio desapontá-lo, pois teria que trabalhar durante o final de semana e tinha um almoço de família programado no domingo. Marco de nos encontrarmos no almoço, no mesmo local onde nos conhecemos, afim de combinar  melhor o que faríamos. Dá tempo de ligar para a minha chefe e dizer que eu chegaria para cobrir a agenda de tarde, já que não havia nenhum compromisso pela manhã. A resposta dele por email chega logo em seguida, dizendo que estará me esperando e que pensou em mim o dia todo.

Quando chego ao bar onde ele me espera, em Ipanema, vejo-o com cara de férias. É a imagem da curtição estrangeira em solo carioca, naquela tarde ensolarada. Sento ao seu lado, trocamos palavras doces, nos beijamos. Estou em transe. Não paro de suspirar ao ver, agora mais iluminados, seus olhos tão lindos a me observar, sedutores. Explico sobre o pouco tempo que terei livre nos dias que virão, mas digo que dedicarei cada momento que puder, para ficar ao seu lado. Ele me pede indicação de hotéis. Combinamos como seria aquela estadia. Acerto de deixar uma mochila com ele, para poder sair do trabalho direto para o hotel, encontrá-lo.
– Posso confiar em você? – pergunto, sempre em inglês.
– Sim, e eu? Posso confiar em você? – revida o rapaz.
– Claro. Afinal, não estou aqui contigo? – sorrio, feliz com a perspectiva daquele fim de semana. Beijo-o com uma risadinha.

Entro na casa dos meus parentes, enquanto ele me espera conversando com um vigia da rua. Rapidamente, arrumo tudo que irei precisar naquele fim de semana e saio sorridente com duas bolsas. Esse ato foi o suficiente para todos os porteiros das redondezas saberem que saí com um argentino e, consequentemente, começar um boato de que eu seria garota de programa. A fama que me persegue por onde passo, diante do preconceito ignorante das pessoas.

Difícil acreditar naqueles meus sentimentos por um estranho que acabara de conhecer. Enquanto entrevisto pessoas nas ruas, escrevo, tiro fotos, desejo apenas que o tempo passe. Penso em que maravilhoso vai ser encontrá-lo de novo. Planejo cada minuto ao seu lado. Recebo alguns emails seus confirmando que ele me espera em um quarto de hotel, na orla de Copacabana. Estou saltitando e rindo à toa. Ansiosa para aquela jornada massacrante chegar ao fim. Dez da noite, consigo deixar o serviço. Pego carona, ônibus, metrô e táxi – tudo para conseguir chegar o mais rápido o possível no endereço que ele mandou. Já são quase onze da noite, quando entro no quarto e o vejo me esperando com aquele sorriso lindo. Peço um minuto para um rápido banho e chego perfumada para me deitar, ao seu lado.

O sexo é leve. Sem pressa, curtindo cada toque, cada gesto. Um ato demorado, ao som de jazz. O ritmo da nossa respiração acompanha nossos movimentos. Beijos adocicados, belas palavras, elogios e confissões. Acalento-me no seu corpo, entro naquele mood. Beijo seu belo corpo bronzeado, de cima a baixo. Lambuzo-me durante o sexo oral. Suas mãos me acariciam tão delicadamente. Sinto a falta da pegada do brasileiro. Nada de puxões de cabelo ou palavras chulas, que tanto me excitam. Enquanto percorre minha pussy, sua língua não é capaz de me enlouquecer. Penso que é delicioso, do seu jeito. E gosto da ideia de poder ensinar novidades para ele, mostrá-lo minhas preferências, quando tivermos mais intimidade.

De quatro, atinjo um orgasmo acompanhado de gemidos em alto tom. Depois de descansar um pouco no papai-e-mamãe, rebolo por um bom tempo sentada no seu pau. Aprecio cada detalhe do seu rosto, e fico alucinada por sua expressão de tesão, ao atingir o clímax. Deitamos agarrados e preguiçosos, após aquele momento sublime. Começamos a falar sobre coisas da nossa vida, até que decido revelar minha identidade virtual e mostrar meu site, explicando que produzo conteúdo erótico com histórias da minha vida. Gosto que qualquer pessoa com quem convivo possa conhecer esse meu lado tão íntimo e, ao mesmo tempo, tão público. Abro o Twitter e revelo algumas coisas que escrevi ao seu respeito. Mostro algumas de minhas fotos nuas.
– Seus leitores já te ofereceram dinheiro por sexo? – sua pergunta me assombra e não sei bem o que responder.
– Não, nunca rolou. Eu também não aceitaria. Nem é minha proposta. Acho até que eles não gostariam de pagar. Muitos querem me conhecer, mas prefiro não me envolver com ninguém, pois não sei se poderia corresponder às suas expectativas. Não sinto tesão em qualquer pessoa.

Ele dá risada com algumas das coisas que lhe mostro.
– Você ficou intimidado ao ver que me denomino “Lasciva”? – o termo existe em espanhol e sei que ele vai entender bem o significado.
– No, me encanta – Juan responde, com brilho nos olhos.

Algum tempo depois, ele diz que também é fotógrafo e pega uma câmera profissional com flash. Pede para eu sorrir para ele e começa a me clicar, nua, na cama. Poso, tentando seduzi-lo do outro lado da lente.

A noite já se estendia madrugada adentro. Dormimos abraçados, de conchinha. Juan enche meu pescoço de beijos carinhosos. “Mi amor, eres perfecta para mi“, sussurra ao meu ouvido, antes de fecharmos os olhos. Quero crer em suas palavras, mas soam poéticas demais para serem verdade. Eu teria me apaixonado mesmo que ele não dissesse tanta coisa linda – senti isso desde que nos beijamos – mas agora parecia irreparável. Ele diz que quer tomar café da manhã comigo e não liga que eu tenha que sair super cedo, pela manhã, para o trabalho. Acordamos, ainda dengosos. No lobby do hotel, como algumas frutas e observo o mar refletindo a luz do sol, lá fora. A paisagem é maravilhosa de um dia lindo. Ele continua dizendo que quer que eu vá passar um tempo com ele, em Buenos Aires. Parece bem empenhado em criar uma fantasia. Explico-lhe, no entanto, que não é fácil acreditar no que ele diz. É intenso e visceral demais, para um caso que acaba de começar.

Vou trabalhar, super dispersa. Não consigo me concentrar no que faço. Quero poder largar tudo para aproveitar aquele dia ao lado do bonito. Depois de uma manhã corrida, vejo que terei umas horas livres durante a tarde e escrevo-lhe para me esperar. Saio correndo e não me importo de perder mais algumas horas do meu dia no transporte público, só para poder curtir uma praia com ele. Quando chego no nosso quarto, seu semblante parece ter mudado. Ele nem me olha. Está em uma conversa via Skype, falando em espanhol, impaciente.

Entro no banheiro e começo a trocar de roupa. Saio, ponho um biquíni perto dele, chacoalhando o bumbum diante do espelho. Pegamos nossas coisas e descemos de elevador. Por mim, a gente se deitava na areia de frente ao hotel. Queria descansar, deitar na canga, ir ali na frente, sem ter que andar muito. Mas não. Ele tinha outros planos. Queria surfar. Pede-me para irmos a uma loja ali do lado, alugar uma prancha. Demora um tempo escolhendo uma roupa de neoprene na loja de surf. Caminhamos a praia inteira, atrás de ondas para ele pegar. Não havia ondas. Quando ele finalmente desiste, após pegar alguns caixotes no mar, deita-se ao meu lado e sinto seus músculos todos tensos. Completamente travado. Faço algumas massagens, mas não adianta. Ele não conseguia relaxar. Peço que ele respire fundo e pare de tensionar seu corpo, daquele jeito. Inútil. O rapaz não parecia disposto a aproveitar aquele momento de férias para descansar.

Ficamos pouco mais de dez minutos sob o sol. Trocamos palavras fofas. Ouço algumas músicas do seu iPod – gosto do seu gosto musical. Quando lhe digo que tenho que voltar, Juan responde que prefere me acompanhar até o hotel. Estamos excitadinhos com aquele calor no nosso corpo. Chegamos no quarto, já despindo nossa roupa. Transamos apressados, sobre a mesa do quarto. Ele me joga na cama, vejo-o gozar no papai-e-mamãe e saio correndo para voltar ao trabalho. Estou bem mais animada, empolgada para passar a noite com ele. Convidei-o para irmos juntos à Fosfobox, boate de música eletrônica em Copacabana. Ele pareceu gostar da ideia. Mais uma vez, enquanto trabalho, quero apenas ver o tempo passar. Às nove da noite, estou liberada para ir embora e saio empolgada. Teria o domingo de folga e poderia, finalmente, curtir gostoso o dia com ele.

Encontrá-lo deitado com cara de sono no quarto de hotel é um baque. Juan está de cara amarrada, não me olha, não me cumprimenta direito, não quer vir me beijar, sequer me toca. Tomo um banho, deito ao seu lado e começo a espalhar hidratante pelo corpo. Pergunto se ele não chegou a descansar durante o dia. Ele diz que dormiu, sim. Mas acrescenta que não está disposto a sair para a balada comigo. Frio e seco a cada resposta. Em certo momento, viro-me para ele:
– Quer que eu vá embora?
– Não, não, – responde, consternado, quando finalmente me beija – estou preocupado com problemas de trabalho. Tenho que ir embora depois de amanhã. Estou muito cansado, não vou conseguir sair.
– Bem, se quiser que eu me vá, pode dizer. Não tem problema.
– Fica tranquila, sempre digo tudo o que quero – pelo menos essa resposta soa como verdade.

Tem que ir embora? Pensei que ficaria mais alguns dias. Que estranho, quantas mudanças de planos. Aquilo é muito frustrante. Insisto para sairmos. Queria ao menos jantar ao seu lado. Não comi nada desde o café da manhã e estou faminta. Ele topa um jantarzinho e vou para o banheiro me maquiar e secar o cabelo. Digo-lhe que espere cerca de uma hora. O processo para me arrumar é lento. Quando volto, já quase pronta, ele diz que não conseguirá nem me acompanhar no restaurante.
– Não quero estragar sua noite. Vá para a festa, volte bem louca e transe comigo. Ficarei aqui, te esperando.
– Não, eu quero ficar com você! Não me importa a festa, prefiro ficar aqui, se você quiser mesmo minha companhia – explico, sinceramente. Ele sorri.

Visto um vestido rodado e ponho um sapato alto de verniz vermelho. Faço pose, ao encará-lo.
– Você parece uma princesa – sua resposta me encabula.

Depois de tentarmos em vão pedir comida no hotel, desço para o restaurante ao lado, pegar comida para levar para o quarto. No momento em que esperava a chegada da minha caçarola de frutos do mar, vejo um rato passar dentro da cozinha do restaurante. Solto um grito, horrorizada. É o terceiro rato que vejo naquele dia. Tudo parece muito estranho, muito errado. Quando volto, Juan continua deitado na mesma posição. Televisão ligada e olhando para a tela do seu smartphone. O hotel não nos fornece pratos para servir a comida. Tenho que despejar o conteúdo em copos que há no banheiro e comemos com a mão.
– Que lástima! – profere ele, quando vê a sujeira que aquela comida fez no nosso banheiro. Depois consigo limpar tudo, ao menos.

Enfim, chega a hora do sexo. Subo sobre ele, faço-lhe um boquete. Começo a despir nossas roupas, cavalgo no seu pau. Ele começa a me filmar com seu celular. Acho aquilo broxante, mas deixo. Permito que faça o que quiser, pois desejo apenas que ele aproveite o momento. Incomoda-me a ideia de protagonizar uma pornografia para um cara que não conheço, mas é interessante deixar o momento registrado. Depois que chego ao orgasmo, peço-lhe para me foder de quatro, com força. Repito o pedido, algumas vezes, olhando para trás, com a boca entreaberta:
– Harder, fuck me harder – emito gritinhos, jogo o cabelo, ponho o dedo na boca, estimulo meu clitóris, puxo sua mão para o meu mamilo. Aquilo se parece mais com o que gosto.

Depois que gozamos, o papo vai longe. Os dois nus, deitados na cama. Peço-lhe para me contar sua vida e percebo as crises existenciais que vivencia. Ele realizou coisa demais para um garoto da sua idade – é formado em engenharia, mas nunca exerceu. Morou na Europa, fundou uma empresa multinacional hoje avaliada em alguns milhões de dólares.
– Sinto que não tenho controle sobre os acontecimentos da minha vida – revela, angustiado. – Você não imagina como é pesado. É como um filho, não posso descuidar nenhum minuto.
– Sim, consigo imaginar – respondo, comovida. Seus argumentos são realmente compreensíveis.

Peço para trocar de canais e vejo que está passando um filme que amo, Nove Canções. Digo-lhe que as cenas de sexo são tão explícitas, que é quase pornográfico. Ele não parece se interessar e continua grudado na tela do seu celular. Outro filme começa e percebo que Juan continua com a mesma frieza. Tento imaginar o que se passa na sua cabeça, o que o fez mudar tanto. Pergunto se posso desligar a tevê e me deito ao seu lado. Ele continua sem me tocar, no escuro, olhado para o smartphone. Alguns minutos de passam, reviro-me na cama, e decido então perguntar o que ele estaria fazendo na internet àquela hora.
– Instagram – responde, mostrando-me as fotos que vê na tela. – Conhece?
– Sim, sim, eu tenho – fico me questionando se ele estava realmente cansado, como havia me dito.

Pouco depois, ele reclina sobre o travesseiro e ouço o som de música clássica. Juan está ouvindo música de fones de ouvido.
– Está ouvindo piano?
– É Chopin. Quer escutar? – diz, entregando-me um fone.

Ponho na orelha e sinto uma tensão sonora invadir minha caixa craniana. Naquele momento, imagino como é estar dentro da sua cabeça. Nunca relaxar, não deixar o cérebro parar, nem na hora de dormir. Devolvo-lhe o fone após apreciar por breves minutos a beleza daquela música frenética. Muito poético e visceral, assim como ele.
– Não quer mais ouvir? – indaga Juan.
– Não, eu preciso dormir. E você também – revido, secamente.

Adormeço ao seu lado, pensando no peso de ser diretor de uma multinacional na sua idade. Obter tudo por mérito próprio e, ao mesmo tempo, não conseguir aproveitar plenamente os pequenos detalhes da vida. Quando acordo, ele está dormindo virado para o outro lado da cama. Meu celular estava erroneamente programado para tocar bem cedo. Vou ao banheiro, mas não consigo mais dormir. Fico algumas horas esperando ele se levantar, em vão. Tento fazer algum chamego ao seu lado, porém sou solenemente ignorada. Certa hora, depois das dez da manhã, desisto de aguardá-lo e levanto-me para ir curtir o dia. Ele enfim abre os olhos.
– Vamos tomar café-da-manhã? – pergunta, quase pulando da cama.

Detenho-no.
– Calma. Bom dia. Deixa eu massagear seus pés, antes disso – olho bem nos seus olhos e projeto meu corpo sobre o dele, tentando transmitir o máximo de doçura e tranquilidade.

Juan deixa-me realizar mais aquele gesto afim de fazê-lo relaxar. O que é, de novo, totalmente inútil. Depois de apertar cada dobrinha, cada osso, cada músculo dos seus pés, beijo-os e então tento beijar a parte interna de sua coxa. Neste momento, ele começa a se levantar, dizendo que está na hora de tomar café da manhã. Não me retribui nenhum beijo, não recebo qualquer abraço. Começo a me sentir catatônica diante da situação.

Durante o café, demoro um pouco para conseguir chegar na questão que eu queria abordar. Enquanto falamos sobre os planos para aquele domingo, tento ser sutil:
– Veja bem, você não precisa ficar comigo, se não quiser.
– Por que você diz isso? – revida ele, como eu eu tivesse dito algum absurdo.
– Eu não entendo, você mudou completamente. Foi tão doce, quando te conheci, e agora você está frio. Fiz algo de errado? – quem ouve essa discussão de relacionamento, pode pensar que estamos juntos há eras.
– Estou com a cabeça cheia. Não tem nada a ver com você. É por causa do meu trabalho. Você não imagina como é pesado. Ver todos te olhando, querendo saber o que fazer a seguir.
– Sim, eu imagino. Eu entendo – de alguma forma, sua resposta não me convence.

No elevador, ele continua a não corresponder aos meus carinhos. Digo para irmos à praia juntos. Ele topa. Depois de prontos, descemos e tento puxá-lo para ali perto. Vejo que ele trava e digo apenas:
– Tudo bem, vou aonde você quiser me levar.
– Perfeito – Juan responde, autoritário. Ao menos me dá a mão.

Andamos um pouco pelo calçadão, encontramos uma área mais tranquila e paramos para pegar uma praia. Mal sentamos, ele diz que viu umas ondas e sai para alugar outra prancha, pegar sua roupa. Diz que volta logo. Parece que a ansiedade o afligia até no momento de curtir sua folga. Chegou ao Brasil determinado a pegar algumas ondas e nada tirava da sua cabeça aquela tarefa – que deveria ser, na realidade, um momento de lazer. Admiro o quanto ele era obstinado. Mas já não aguentava mais aquela situação frustrante. Sonhei com um lindo domingo de folga ao seu lado e acordei num pesadelo de estresse. Cadê a parte boa de pode aproveitar sua companhia? Era melhor ter feito qualquer outra coisa.

Depois que retorna, ele se empenha em outras tentativas fracassadas de pegar ondas, até desistir. Clico belas fotos dele no mar. Voltamos à areia. É quando Juan me chama para tomar uma cerveja. Já não posso mais, tenho um almoço de família. Digo que me vou e peço para ele me acompanhar até o quarto. Quando estamos chegando, convido-o para tomar um banho comigo. Ele continua frio, mas topa. Lá em cima, em vez de entrar no chuveiro comigo, o rapaz tenta fazer uma ligação, que está com o sinal péssimo. Fico arrumando suas coisas, na expectativa de que faça o que combinou e possamos, ao menos, nos despedir direito. É quando ele me pede para ajudá-lo a baixar as fotos do seu iPod. Tento, mas não consigo. Impaciente, ele esbraveja:
– Vamos logo, para de enrolar, tenho devolver minha prancha! – há muita grosseria no seu jeito de falar.

Olho nos seus olhos, sem acreditar que ele está me tratando daquele jeito. Passou dos limites.
– Estou apenas tentando te ajudar. Mas deixa. Tudo meu está pronto. Tomarei banho em cinco minutos e vou nessa – revido, direta e seca.

Ensabôo meu corpo com muita raiva. Quero dizer a ele o quanto o cara foi mentiroso comigo. Acabou me ferindo. Não precisava ter feito aquilo, sido grosso daquele jeito. Que veio com aquele papinho manjado de que eu era isso e aquilo. Criei expectativas de ter ao menos um fim de semana gostoso e nem isso ele foi capaz de me proporcionar. Que ele não teve o mínimo de consideração pelo que fiz para ele – a burra aqui chegou a dar a ele o dinheiro que não tinha porque o cara disse que não conseguia sacar fora da Argentina. E nem tive uma despedida à altura. Desabei e deixei todos os sentimentos tomarem conta, naquele momento. Saio do banho, visto-me, respiro fundo e digo que podemos ir.

No elevador, ele avisa:
– Odeio despedidas.
– Queria ao menos transar uma última vez – eu já estava suspirando, de novo.
– Ah, podemos nos falar mais tarde.
– Isso, se quiser, manda email, que a gente se encontra – a idiota aqui já caiu nos encantos dele, de novo.

Na frente do hotel, Juan me hipnotiza com seus olhos verdes, pela última vez:
– Eres una buena persona. Me encanta que yo he conocido, hermosa. Vamos hablar, quiero ver-te novamente – apenas o encaro, sorrindo e respirando profundamente. Fico estática com seu jeito sedutor. E vou.

Quando chego em casa, olho a cada minuto para a caixa de entrada da minha conta de email, afim de saber se receberia ao menos uma manifestação de consideração dele. No mínimo, desejava uma palavra bonita para acalentar meu coração esmorecido. Nada. Nem uma resposta depois de te enviar todas as fotos que tirei dele na praia. Nem um “obrigado”.

Preferia que ele não tivesse me feito sentir especial, se soubesse que o custo disso era ter que lidar com o seu desprezo, em seguida. A sensação era que o melhor que pude oferecer não foi o suficiente para agradá-lo. Esperava momentos lindos de diversão ao seu lado, mas o que predominou foi o estresse. Fiquei surpresa como aquilo me machucou. Dormi e acordei pensando no seu desdém. Em como ele foi contraditório. Como me senti enganada. Como me senti estúpida de dedicar todos os meus esforços de um fim de semana para agradar alguém que parecia incapaz de valorizar meus gestos. Acordei ainda com uma sensação de tristeza, peguei a condução para o trabalho sem vontade de observar nada, olhando para o vazio, com um aperto dentro de mim.

Saí do metrô ouvindo uma música mais animada do grupo Metronomy, no iPhone. Atravessei a Praça XV, no centro do Rio, andando a passos largos, requebrando, balançando a cabeça, estalando os dedos no ritmo da música. Foi quando percebi que, bem ou mal, minha inspiração para escrever depende disso: emoções fortes.

Demoro a conseguir superar o Juan. A deixar de pensar nele. Havia quase um ano que nenhum rapaz dominava meus pensamentos, daquele jeito. Preocupada com o fato de não conseguirmos nos comunicar direito, decido lhe enviar um outro email. Questiono se ele tinha entendido que meu trabalho na internet não envolve prostituição. Não quero que ele ache que sou garota de programa, como o garoto mesmo sugeriu, quando lhe contei sobre minha personagem virtual. Esse é o maior mal de ter um blog de sexo: ficar angustiada a cada nova pessoa que conheço, imaginando se irão compreender o que faço. Explico que continuo sem entender como ele pôde mudar tanto de um dia para o outro. Independentemente do motivo, quero que saiba que só me envolvi com ele por achá-lo especial – que não dedico meu tempo e meu corpo a alguém com quem não haja afinidades, com quem não me sinta à vontade, com quem não me faça vibrar.

Ele me responde com doçura. Diz novamente que estava com a cabeça cheia de trabalho e lamenta por eu tê-lo achado frio. Que nosso encontro foi mágico e o deixou encantado. Fala que estamos há poucas horas de avião um do outro e que gostaria de me ver de novo. Ainda nos falamos por Skype algumas vezes. Insisto que me envie as fotos que fez de mim, o vídeo que gravou de nós dois. Nunca chega. Difícil confiar em alguém que age assim.

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