Entrevista: Rebiscoito – uma garota normal, ou nem tanto


Entrevista: Rebiscoito – uma garota normal, ou nem tanto

Conhecida na internet como Rebiscoito, Renata relata sua vida em um blog pessoal, onde descreve suas peripécias, lindos achados e coisas que ama. Sob a alcunha Rebiscate, seu alter ego, revela no Twitter seus desejos eróticos, conta quando se depara com alguém que a atiça, compartilha pornografia. Apaixona-se a cada esquina e adora fazer contatos com desconhecidos através de bilhetes. Ela tem faro para detalhes pitorescos do cotidiano – tanto é que já achou um garoto que nunca tinha visto divulgando na internet uma foto 3×4 que encontrou no chão.

Aos 26 anos, acaba de voltar de uma longa temporada na Europa que mudou sua vida. Diz que foi lá para se perder, afim de se encontrar. E voltou mais perdida do que nunca. Conheça um pouco de sua história e como Rebiscoito concebe a vida e o mundo:

Antes de tudo, conte um pouco sobre sua experiência no exterior e a principal transformação que isso te causou. Por quanto tempo você morou fora?
Por 1 ano e 3 meses sendo que 1 ano em Londres e 3 meses na Holanda.

Com que objetivos se mudou?
Estava de saco cheio da minha vida aqui no Brasil. O emprego me entediava, estava super infeliz no amor… E não tinha nada que me prendesse aqui, então a falta de motivos para ficar, foi o que me fez querer sair. Fui pra Londres com a desculpa de melhorar meu inglês, mas a verdade é que fui pra lá me perder para me achar.

Soube que você começou a namorar um estrangeiro, em Londres, com quem manteve uma relação aberta e frequentava ambientes de BDSM. Como isso aconteceu?
Nos conhecemos na residência de estudante em que morávamos e em um mês, começamos a morar juntos. Foi meio louco, mas nos dávamos muito bem e sairia muito mais barato dividir as despesas, que em Londres são bem altas. Acabou dando super certo pois aos poucos fomos nos conhecendo melhor, e a relação foi fluindo de um jeito incrível. O fato de ser uma relação aberta foi algo meio natural. Como nos conhecemos bem no começo da minha viagem, eu ainda queria curtir e sempre perguntava pra ele se ele se importaria se eu beijasse alguém. Sempre fomos muito sinceros um com o outro, e acho que por isso funcionou tão bem. Incrível como um relacionamento aberto honesto pode ser tão mais bonito e bacana do que um relacionamento convencional cheio de mentiras e traição.
A parte do BDSM foi vindo aos poucos. Sempre conversávamos muito sobre sexo, o que cada um gostava e tal… E começamos a pesquisar festas em Londres relacionadas a fetiche e tal. A nossa primeira foi no ano novo de 2010 para 2011. Foi o melhor ano novo da minha vida! Depois disso, nunca mais paramos, foi como se tivéssemos encontrado um universo paralelo.

Foi o seu primeiro relacionamento liberal?
Foi. Espero que não seja o último, mas não sei se conseguiria ter um aqui no Brasil. A mentalidade dos homens brasileiros é muito diferente, então não tenho tanta certeza se funcionaria. Claro que vou tentar, quem sabe não rola algo com regras diferentes?

Vocês aprontaram muito juntos?
Até que sim. Nas festas de fetiche rolavam coisas bem loucas nas dark rooms. A gente conhecia gente diferente, chegamos a fazer troca de casal com um casal que conhecemos na primeira festa. Rolou ménage com um amigo dele, e outro com uma alemã que conhecemos em uma festa. Enfim, exploramos muito bem nossos fetiches e fantasias. Experimentei muitas coisas com ele que nunca achei que experimentaria. Coisas que nem tinha vontade, mas que ele curtia e acabou sendo uma baita experiência legal. O fato dele ser super mente aberta ajudou muito a podermos explorar nossa vida sexual. Hoje em dia quando conheço homens que falam coisas do tipo “ninguém chega perto da minha bunda” me dão uma preguiça tão grande.

Muita gente acha que na putaria não pode haver amor. Acha que vocês se amavam como qualquer casal?
Muito. As pessoas me perguntavam: e se você conhecer outro cara e se apaixonar por ele? Bom.. Eu tinha ficado solteira por muito tempo antes de conhecer ele. Me apaixonei por vários caras e fui entendendo como funcionava essa coisa de conhecer alguém, começar a gostar… Comecei a dar muito valor não só ao sentimento, mas também ao tipo de relação que eu tinha com as pessoas. Além de gostar de mim e me tratar super bem, ele não ligava que eu pegasse outras pessoas. Tem coisa melhor que isso? Eu sabia que não teria algo assim tão facilmente com outro cara, então meu amor por ele era uma soma do sentimento + a relação que eu realmente queria ter… Enfim. O que eu sentia pelos outros existia, não vou mentir. Mas não abriria mão do que tinha com o meu namorado para viver um novo amor desconhecido. Era como se eu finalmente tivesse achado o que eu queria.

E seu amor por ele não anula qualquer desejo, atração ou até eventual paixão que possa ocorrer com outras pessoas, né? Como vocês lidavam com isso?
Eu sempre fui apaixonada por flertar. Não há nada melhor do que aquele sentimento de expectativa do primeiro beijo, dos olhares… E era isso que eu gostava de ter com as pessoas, coisa que não daria pra ter de novo com o meu namorado. E acho que de certa maneira, ele entendia isso. Enquanto eu deixasse ele seguro de que eu o amava e não iria trocá-lo por outro cara, a coisa sempre funcionava muito bem. A base de tudo era uma boa conversa.

Renata, em meio a duas paixões. Maikel, seu ex-namorado, é o da direita.

Você se considera uma pessoa de mente aberta? O que caracteriza alguém de cabeça aberta, na sua opinião?
Acho que sim. Gosto de experimentar coisas novas, não julgo vontades e fetiches diferentes das outras pessoas. Acho que alguém mente aberta não julga. Pensa duas vezes antes de falar “eu nunca faria isso”.

Onde você encontrou pessoas de mente aberta com mais facilidade? Na Inglaterra, Holanda ou Brasil?
Encontrei muitas na Inglaterra pois a maioria das festas fetichistas que eu fui, foram lá. Mas as pessoas na Holanda são mais mente abertas do que na Inglaterra, eu acho. Eles tratam nudez com uma naturalidade incrível, e falam de sexo abertamente sem pudor. Infelizmente não tive tantas experiências bacanas lá, mesmo porque só morei lá por três meses. Mas adoro o povo holandês e admiro muito a cultura deles.

Continuando o paralelo entre as culturas. Onde você observa valores mais tradicionalistas? Qual cultura você considera mais tolerante no respeito às diferenças e à liberdade individual?
Acho que aqui no Brasil a gente tem muito pudor. O machismo ainda é muito forte, e o preconceito que as pessoas tem acaba dificultando um pouco o andamento das coisas. Há pouco tempo fui numa festa de swing aqui em São Paulo, pela primeira vez na vida. Achei que finalmente encontraria pessoas de cabeça aberta, e talvez teria uma “nova turma” para aventuras sexuais aqui no Brasil. Todo mundo me perguntava como eu tinha ido parar lá, e eu contava sobre as festas que ia em Londres e tal. Sabe qual foi o apelido que me deram? “A dominatrix”. Ficaram surpresos quando falei que tinha um chicote, que tinha tido um escravo… E olha que eu nem sou tão fã de dominação assim, apenas experimentei algumas vezes e achei bacana. Imagina se eu tivesse contado pra eles que já fiz xixi na cara de um cara, que já fui espancada e fiquei com hematomas homéricos no dia seguinte? O povo lá tinha a mente super fechada, mesmo estando num ambiente que era pra ser liberal. As pessoas aqui no Brasil julgam muito as outras, e na Europa, no geral, isso rola menos.

Londres é famosa por sua produção musical e vida noturna. Holanda pelo consumo de drogas liberado e pelo bairro da Luz Vermelha. O que você mais curtiu nas baladas europeias?
Pra falar a verdade, acho as baladas em São Paulo melhores do que as de Londres, musicalmente falando. Lá eles começam muito cedo e acabam muito cedo, isso foi algo que demorou MUITO pra eu acostumar. E lá eles curtem mais música eletrônica meio pesada, meu negócio é eletro-rock, indiezinho… E lá eles tinham mais gigs, que são shows de bandas. Eu não sou grande fã de ir em shows, então acabava indo nas baladas e as indies eram bem fraquinhas. Mas claro que tinham lugares muito mais fodas do que aqui, e era tudo muito divertido.
Já na Holanda essa parte do Red Light District é bem turística, né. Pra quem nunca foi é bem legal e diferente ir pela primeira vez. É meio surreal essa coisa de andar entre prédios num espaço estreitinho e ver mulheres se insinuando pra você dentro de vitrines. Você não sabe se olha no olho delas ou pro corpo… Dá um pouco de vergonha. Mas sei lá, depois que você já viu, não passa de um mero lugar turístico porque elas cobram SUPER caro e… em euros, né? Hahaha.

O que te chamou atenção no público dos pubs, clubs e festas que você frequentou?
Os ingleses bebem muito e são muito fechados entre si, então essa era uma coisa que deixava a situação meio difícil. Nunca tive problemas em chegar em homens, mas lá em Londres tinha que chegar cedo e conseguir começar uma conversa antes que eles tivessem caindo no chão de bêbados. As meninas, se vestem super como vadias. Vestidos e saias curtíssimas, mostrando até o gominho da bunda. Mas os caras normalmente estão sempre muito bêbados para reparar nelas. Lá eles saem pra beber mesmo, não pra pegar, como a gente faz aqui no Brasil.
Uma diferença bem bizarra é que essa coisa de beijar na balada e ir cada um pra sua casa, não existe. Lá, se você beijar alguém na balada, o mais comum é que vá com a pessoa pra casa fazer sexo. Eles não entendem muito essa coisa de se pegar super forte e depois parar.
Até que faz sentido, né? Mas é totalmente cultural.

Frequentou quais festas liberais? Qual foi a que mais gostou?
Putz, as que eu me lembro o nome: Torture Garden, Club Rub e Wonderland.
A minha preferida é a maior e mais famosa Torture Garden, que também foi a minha primeira. Mas a Wonderland foi incrível, super colorida e com um clima incrível. Não tem sempre, mas se tiver uma quando eu voltar pra lá, com certeza vou de novo.

Na balada londrina Club Rub, cujo tema era “animal”.

Os ingleses são conhecidos por serem fechados e discretos. Acha que são mais pudicos que os brasileiros?
Não diria que mais pudicos, porque aqui no Brasil a gente também é cheio de pudores. Mas essa coisa deles serem fechados, é só a “casca” deles. Era incrível ir nas festas fetichistas e ver o verdadeiro lado dos ingleses, aquele lado aberto e liberal, que eu nunca imaginaria ver. Mas claro, as pessoas que frequentam essas festas não podem ser tomadas como exemplo. No geral, acho que não dá pra julgar se são pudicos ou não. Acho que depende de cada um mesmo.

Está nos seus planos voltar a morar na Europa, futuramente?
Está sim, mas é mais como um sonho do que um plano. Pra quem não tem passaporte europeu, morar por lá é muito caro. Preciso arranjar um emprego, o que não é nada fácil. Então meus planos agora são trabalhar muito aqui no Brasil, pra ganhar dinheiro e conseguir viajar de novo, o mais rápido possível.

Você tem mais experiência com a internet do que eu. Não canso de me impressionar com o tanto de ódio e preconceito que vejo publicado na web. Acha que essa liberdade de expressão e esse espaço democrático alimenta a intolerância? Tenho medo.
Não acho que isso alimenta a intolerância. Ela sempre esteve ali, mas agora as pessoas tem espaço pra falar. Existe MUITA coisa boa na internet também, a gente só precisa filtrar a informação que queremos ver. O que precisamos fazer é sempre buscar novas maneiras de fazer o bem, fomentar discussões saudáveis e dividir experiências, para que as pessoas tenham menos preconceito e abram mais a cabeça em relação a sexo por exemplo. Foi por isso que criei o @rebiscate e nunca escondi minha verdadeira identidade. Como já tinha certa audiência com o @rebiscoito, achei que seria bacana as pessoas verem que eu, uma garota “normal”, também gostava de sexo e não tinha o menor problema em falar abertamente sobre isso. Muita gente me escreve dizendo que admira minha coragem e tem vontade de ser mais aberto assim, e eu fico feliz quando vejo que consegui mudar pelo menos um pouquinho da cabeça de cada um.

Rebiscoito é mesmo fora da casinha. Veja um pouco mais sobre essa garota e suas curiosas manias:

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