O erotismo perturbador de Araki

Nobuyoshi Araki é um fotógrafo japonês que já publicou mais de 450 livros. Produz principalmente fotos eróticas – que muitas vezes são consideradas pornográficas. Tornou-se conhecido nos anos 80, quando documentou a indústria do sexo de Tóquio para a revista Photo Age. Ao tratar de arte e erotismo, a publicação buscava mostrar que ambos são produtos igualmente resultantes da infinita busca humana por prazer e quaisquer perversões que lhe estejam envolvidas.

Araki circulou pelos centros de entretenimento adulto, como clubs e sex shops, registrando as mulheres que lá trabalhavam. Boa parte de suas imagens compuseram, portanto, um arquivo histórico sobre o sexo e a moral no oriente, no início da década de 1980. Época de grande liberdade sexual, antes da AIDS estourar como epidemia global. Uma fase profícua para o mercado do sexo, quando foram atraídas para o meio mulheres comuns, amadoras, sem o passado pobre que caracterizava as prostitutas de tempos anteriores. Empolgadas e despreocupadas, elas e seus clientes colaboravam para criar fantasia nas fotos do japonês, que parecem retratar a realidade crua, em que os sujeitos estão de fato curtindo o momento.

O artista é, porém, consciente da ficção inerente à suposta objetividade da ficção documental: como os personagens sabem que questão sendo fotografados, eles não são clicados em seu estágio natural. Além do mais, o fotógrafo, involuntariamente ou não, acaba impondo suas próprias ideias e, portanto, certa artificialidade. A princípio, Araki nos apresenta fatos que ele parece registrar em imagens e nos faz acreditar que aquilo de fato ocorreu – e com que ele apenas se deparou oportunamente.

Mas, em algum momento, fica claro que tudo ali é invenção, ficção. Ele destrói a crença generalizada de que a fotografia retrata a realidade. “Há uma câmera entre um homem e uma mulher”, explica o artista sobre sua proposta de fazer sua lente se transformar no olho dos sujeitos em cena. O vigor da luxúria e do hedonismo ostentador que muitas vezes chegava ao limite do nonsense e do bizarro  atrai a atenção do olhar do fotógrafo.


Araki nos arrebata.

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