Feminismo e histeria

“Algumas feministas viajam”, foi o que respondeu meu amigo, quando lhe perguntei se ele se considera feminista. O rapaz passou horas reclamando do machismo tão presente justamente nelas, nas mulheres. E mesmo assim não quis ser chamado de feminista. Entendi seu ponto. Aliar-se a algumas mulheres talvez tão equivocadas quanto as machistas que ele criticou, talvez não seja a melhor saída.

Sou feministaIsso significa, para mim, colocar as mulheres em condições de igualdade com os homens. Acho que ele também é. Afinal, reclamou que não se sentia valorizado por cuidar da casa e da filha, enquanto fazia sua tese de doutorado e sua ex-esposa trabalhava fora. Disse que qualquer mulher que queira direitos iguais tem que se dispor a bancar as despesas, pau a pau – e não achar que só os homens devam ser os provedores. Nada mais justo. Até porque os caras têm o hábito de pagar as coisas só porque esperam em troca favores sexuais. Pergunte a eles. Para as mulheres, é cômodo se beneficiar dessa forma. O problema é que eles acabam achando que podem nos comprar com mimos materiais.

Outro amigo afirmou, uma vez, que o movimento feminista carece de um homem para encabeçar. Achei a ideia genial. Amo homens feministas.

Mas algumas feministas realmente se atrapalham – e prejudicam a causa. Não é de hoje. Na década de 60, Valerie Solanas escreveu um manifesto misandrista (de desprezo ao sexo masculino) e tentou assassinar Andy Wharol. Como se o terrorismo fosse capaz de dar alguma moral às mulheres. É evidente que só desmoralizou o feminismo. Tanto que Valerie foi dada como louca e tratada em hospital psiquiátrico. Esse tipo de equívoco torna mais difícil a adesão ao movimento – principalmente deles, que são aliados tão importantes na luta por igualdade.

Atualmente, vejo atitudes tão histéricas e radicais de mulheres que se dizem feministas. Chega a me envergonhar. Já ouvi quem fosse contra a mulher dar de quatro, pois seria um ato de subjugação. Da mesma forma, manifestantes se voltaram contra o romance Cinquenta Tons de Cinza, dizendo incitar a violência contra a mulher. Ou seja, provavelmente sequer leram o livro – afinal o protagonista Christian Grey tornou-se sadomasoquista, inicialmente, ao assinar um contrato de submissão a uma mulher. Ele foi submisso, como muitos homens são, nesse meio. E um dos princípios do BDSM é a consensualidade. Parece que algumas feministas estão lutando contra os inimigos errados. Ou não percebem que relações sexuais são uma coisa – e relações sociais, outra?

Também me chama a atenção, em especial, os últimos atos despropositados do Femen Brazil. Quando o movimento começou, cheguei a oferecer apoio à sua líder, Sara Winter. Hoje quero distância delas. Em novembro do ano passado, as meninas fizeram um ato contra a “ditadura da beleza”, derrubando manequins dentro da loja da Marisa, num shopping em Belo Horizonte. Tudo por causa de um comercial em que uma mulher faz uma homenagem às comidas leves que a fizeram ficar mais magra para o verão. Nesta semana, foi a vez de outro manifesto dentro de um shopping, dessa vez contra a alienação provocada pelo Big Brother Brasil.

Não que as garotas não possam se manifestar por tais motivos, já que acham tão relevante. Mas sou da opinião que atitude agressiva nós usamos contra aquilo que nos agride. Gritar, derrubar coisas e se debater não me parece a maneira mais inteligente de combater comerciais e programas de televisão. Se isso as ofende, há tantas maneiras mais coerentes de agir – com autocontrole. Histeria definitivamente não é uma boa saída contra a alienação. Espero, de verdade, que o movimento mude de rumo, pois esse caminho não parece levar muito longe.

E eu continuo feminista. Vou fazer o possível para ser tratada em condições de igualdade com os homens. Pretendo, para isso, agir racionalmente. É com inteligência que planejo combater todo o machismo que predomina por aí.

Aliás, um argumento comum entre os machistas é que sempre sobra para eles os trabalhos braçais. Grande coisa. Como se mulheres não tivessem condições de ser pedreiras ou mecânicas. Claro que esse mercado tem mais espaço para os homens. Mas basta elas quererem – e estarem dispostas a enfrentar preconceitos – que são capazes de realizar os mesmos serviços, com os mesmos resultados. Eu mesma já pintei as paredes de um apartamento inteiro, faço reparos na casa, troco a resistência do chuveiro sozinha. Não gosto de levantar peso, mas sou forte e dou conta de muita coisa, se preciso. Para matar baratas, o Baygon é melhor que qualquer rapaz. Se liguem, meninas! Não dependemos deles.

Calma, não estou dizendo que homens são totalmente dispensáveis (por mais que não precisemos deles nem para fazer filhos, desde o advento da inseminação artificial). De forma alguma, abro mão de um bruto disposto a me meter uns tapas, na cama.

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