Ferida interna


Ferida interna

Descobri, recentemente, uma ferida no meu colo do útero. Não era uma feridinha qualquer. Assustei quando, de pernas arregaçadas, vi na tela do notebook da ginecologista a imagem ampliada em vídeo da minha vagina aberta com o espéculo. Parecia que o machucado cobria toda a área do meu colo. A médica disse que era de grau -3, o maior diâmetro na classificação daquele tipo de lesão. Medo.

Segundo ela, parecia HPV (papiloma vírus humano). A doutora explicou que 80% da população sexualmente ativa já teve contato com o vírus. E todo mundo já ouviu que o HPV pode evoluir para um câncer de útero. Bem nessa época, surgiram outros probleminhas chatos, como dificuldade para urinar e foliculite – inflamação dos folículos capilares nos meus pentelhos (ieargh!). Então já viu. Comecei a me culpar de ter deixado chegar àquele ponto. Perguntar-me como pude vacilar assim, mesmo com tantos cuidados com a minha saúde. Enquanto não recebia o resultado do exame, os questionamentos sobre o que poderia haver comigo não saíam da cabeça. Bateu a neura de que era algo grave.

Não à toa. A história da minha ferida no colo de útero remonta três anos atrás, quando eu ainda me consultava com outra especialista. A ginecologista anterior contou que talvez fosse necessário cauterizar. Então prescreveu outros exames, identificou inflamação e metaplasia escamosa, mas mesmo assim disse que a ferida parecia estar regredindo. Pediu-me, portanto, que voltasse ao seu consultório dentro de seis meses. Ou seja: a médica que encontrou, tanto tempo atrás, aquela ferida dentro de mim, nem sequer explicou qual a causa. Muito menos tratou devidamente. Adiou.

A natureza não enrola

Coube a mim imaginar o motivo daquela lesão. Uso o DIU Mirena há mais de seis anos. É a marca de um dispositivo intra-uterino que, além de prevenir a gravidez de diversas maneiras, libera gradualmente hormônios como a progesterona, dentro do organismo. Com isso, o contraceptivo impede a formação da parede do útero (o endométrio), diminuindo o volume da menstrução. É libertador. Algumas garotas contam que nem chegam a menstruar usando o Mirena. No meu caso, tenho sangramento apenas um dia por mês – pequenas gotículas que mal chegam a sujar o mini modess. O valor desse DIU gira em torno de R$ 1.000,00. No fim das contas, o custo-benefício é alto, pois a validade do produto é de cinco anos. Como, por motivos financeiros, não quero engravidar no momento, já estou usando meu segundo Mirena. Recomendo.


Dessa forma, calhou de imaginar que a ferida teria sido provocada pelo DIU. Como a médica só me respondeu que várias poderiam ser as causas e que era preciso acompanhar, aquele motivo me pareceu plausível. Mas os tais seis meses de retorno à ginecologista nunca são tão exatos. A agenda dela vive cheia, a minha idem. Então, entre a nova consulta e os novos resultados de exame e o novo retorno com o diagnóstico, passou-se quase um ano. Já era época de troca do Mirena. Viajei à minha cidade e agendei o procedimento com uma ginecologista de infância, que me dá um descontão. Ela explicou que o DIU não deveria ser a causa da lesão no meu colo de útero – que continuava lá e não parecia estar regredindo. Coloquei o novo contraceptivo e voltei para São Paulo, no meio daquela loucura de início de ano.

Passaram-se mais alguns meses até que eu conseguisse agendar nova consulta com a médica que descobriu a ferida. Qual foi a minha surpresa de chegar lá e descobrir que a doutora não atendia mais o meu plano de saúde. Ou seja, dei literalmente com a cara na porta. No dia, decidi fazer exames de rotina nos postos da rede pública, para desencargo de consciênca. Peguei o resultado negativo dos meus exames de AIDS, sífilis, hepatites B e C. Os postos de atendimento da prefeitura de São Paulo são bem eficientes. O teste rápido de HIV fornece um laudo confiável no mesmo dia, em menos de uma hora. Os demais exames saem em cerca de quinze dias. Não precisei esperar na fila nenhuma das vezes que fui atendida.

Cicatrizando a ferida

Acontece que o colo do útero não dói. Por isso as doenças na região são conhecidas como silenciosas. Então, satisfeita, de posse dos resultados, saí de férias. Pensando em procurar nova médica para me atender, assim que voltasse. Novo início de ano, novas atribulações sem fim. Só agora, em abril de 2012, consegui ser atendida por outra ginecologista. E vi a ferida imensa. Ela não regrediu, como a médica anterior havia sugerido. Pelo contrário, cresceu. Neura.

A doutora sugeriu um exame mais preciso que o papanicolau de citologia convencional – que é antiquado. Tive que desembolsar R$180,00 para fazer o teste conhecido como método ThinPrep, de citologia em base líquida, pois meu plano não cobria essa procedimento. Paguei o preço, por não desejar mais dúvidas a respeito do meu problema. Demorou um mês para sair o resultado e a ansiedade me afligia mais a cada dia. A preocupação de imaginar que poderia haver um HPV evoluindo no meu corpo há mais de três anos.

Quando finalmente recebi o diagnóstico – que alívio! Não era HPV a causa da lesão, mas uma bactéria também muito comum. A gardnerella faz parte da flora natural da vagina. Em alguns casos, diante de um desequilíbrio dessa flora, ela predomina e provoca uma inflamação na região, conhecida como vaginose bacteriana. O principal sintoma desse distúrbio é um leve ardor e uma coceira, podendo ter também corrimento. A doença é, geralmente, tratada com a ingestão de antibióticos e cremes locais. Mas, no meu caso, seria necessário uma intervenção mais séria, devido ao estágio avançado do processo inflamatório. Ingeri previamente antibióticos, mas isso não bastava. Era preciso cauterizar a ferida.

A ginecologista explicou que existem diferentes tipos de cauterização do colo de útero:

Cauterização de alta frequência

Procedimento mais invasivo, que se assemelha uma raspagem. Um tipo de biópsia que retira a área lesionada.

Criocauterização

Cauterização a frio, geralmente com nitrogênio líquido, queimando as células da lesão.

Cauterização química com ácido

Promove a destruição do tecido lesionado com uma substância cáustica.

Eletrocauterização

Uso da eletricidade para queimar a ferida, com um aparelho denominado eletrocautério.

Cauterização a laser

Indicado para os casos de HPV. É o procedimento mais preciso, menos dolorido e também mais caro.

Optei por fazer a cauterização com ácido, pois era o que eu podia pagar. Novamente, o tratamento não era coberto pelo meu plano de saúde. Desembolsei R$ 250,00 para ter meu útero queimado com uma substância cáustica. Não dói. Logo após o uso a aplicação do ácido, senti uma leve cólica, devido à contração uterina. Esperei 10 minutos deitada e, segundo a médica, em uma semana já posso retomar a atividade sexual sem restrições.

Prevenção

Terei que fazer novos exames em um mês. Dessa vez, a consulta já foi previamente marcada, pois pode ser que a ferida não cicatrize por completo. Sobre a foliculite, a médica explicou que talvez fosse uma sequela da depilação definitiva feita de forma inadequada. Segundo ela, o mau uso da depilação a laser pode até escurecer a virilha. Já que comprei minha depilação no Peixe Urbano, estou bem receosa de voltar para a próxima sessão.

Para prevenir, logo tomarei vacina contra o HPV. Não é a solução definitiva para a doença, pois existem mais de 40 subtipos do vírus que podem ser transmitidos até com camisinha. Porém, estudos indicam que ela reduz em 75% os casos de incidência do HPV. Mas é claro que não  dispenso o preservativo de látex em minhas relações. A camisinha pode não impedir a manifestação de todas as DSTs, mas minimiza os riscos de transmissão consideravelmente.

Nunca deixe de se cuidar ou permita que os médicos adiem seus tratamentos. Prevenção e informação nunca são demais. Quem tiver passado por problemas similares, conte nos comentários como foi. A troca de experiências pode ajudar quem sofre de problemas parecidos.

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