Fidelidade e traição: dilemas neuro-psico-sociais


Fidelidade e traição: dilemas neuro-psico-sociais

Um dilema humano tem provocado cada vez mais confusão de conceitos, diante dos novos paradigmas do nosso tempo. Afinal, o que é traição, o que é ter ciúmes e como colocar tudo isso frente ao desejo que surge de dentro de nós? Diversas experiências com pacientes e pessoas próximas têm mostrado como essas questões afligem as pessoas.

Existe um cobrança social de que é preciso haver fidelidade eterna para vivermos uma paixão intensa. Porém, ao amornar o fogo que incendeia quando nos apaixonamos, os olhos começam a percorrer novos corpos, a mente cria outras fantasias.

O desejo é interno, vem do nosso íntimo mais secreto. Não conseguimos ainda “mapear” essa área. Sabe-se que ela é primitiva. Vem do instinto de procriação, que nos leva a buscar corpos mais atraentes e, provavelmente, férteis. Em seguida, esses impulsos são enviados ao córtex pré-frontal. Ali são tomadas as decisões de seguir ou não adiante. É nessa hora que aparecem os fetiches, perversões… desejos obscuros. Podemos ou não fazer, depende do momento e de quem está junto (seja um ou mais). Chegam também todas as impressões desenvolvidas ao longo da vida. Educação, amizades, influências externas são fundamentais para podermos expressar de verdade quem somos.

Enfim, tudo acaba na cama. Seja para dormir, ou não. Para que se reprimir?

A melhor resposta vem do limite. A partir do momento em que nos permitimos viver intensamente todas as sensações e experiências de uma vez, logo enjoamos e queremos mais. E mais. Isso te faz lembrar algumas coisa? Exatamente. Drogas. Sexo age no mesmo local onde atuam todas as substâncias e comportamentos que nos dão prazer.

As baladas são locais muito propícios para se trocar olhares, cheiros, gostos. Quando nos arrumamos para sair, não nos vestimos para nós, e sim para quem queremos que nos olhe. Somos vistos a todo o tempo. E por que não transformar isso em um jogo de prazer?

Voltemos ao caso da traição. Pesquisas mostram que o ato de trair está muito mais relacionado à ética pessoal do que simplesmente ter um caso com alguém com quem sentimos tesão. Ao iniciar um relacionamento, já se pressupõe de cara que a felicidade será eterna. Pode até ser. Mas temos que ter em mente de que os corpos não são propriedade de terceiros. São de quem os conduz. Controlados pelo cérebro de cada um.

O ciúme surge de um sentimento de posse. Mais ainda, de um medo maior de ficar sozinho. Ser trocado por outro. A partir do momento que a pessoa consegue ter confiança individual suficiente, pode abstrair o fato de que jamais possuirá outro ser. Venhamos e convenhamos, já é difícil o suficiente darmos conta de nós mesmos.

Nada mais gostoso do que chegar em casa e saber que tem alguém que se preocupa com você. Mas isso não impede que essa mesma pessoa possa sentir o mesmo por outros. É daí que surge o conceito de poliamor. Um termo novo e que ainda está sendo entendido, mesmo por terapeutas. Encontramos vários casos de pessoas que optam por se relacionar com liberdade, todos os dias. O que causa sofrimento é reprimir um impulso, com medo de não ser aceito pela sociedade. Afinal, muitos ainda demonstram dificuldade de aceitar alguém que faz abertamente “suruba” ou “swing”.

Sugiro que possamos comer de tudo. Mas com calma. Sabendo escolher o talher que vai usar. Chico Buarque já dizia: Façamos, vamos amar!

 

* Dr. Nelson Cardoso é psiquiatra com especialização em dependência química e comportamentos compulsivos, que estuda a sexualidade humana.

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