O bom moço

Volta e meia eu abria de novo o site daquele fotógrafo, a fim de me inspirar com suas lindas imagens. Passei a apreciar seu trabalho no instagram e admirar, cada dia mais, as encantadoras paisagens que retrata, os personagens mundanos – tão reais diante de sua lente. Certo dia, assim que compartilho uma foto sua, vejo que ele começa a me seguir no Twitter. Resolvo fazer o mesmo e passo a acompanhar também suas atualizações em 140 caracteres. Imediatamente, o rapaz me envia uma mensagem privada. Elogia meus textos, de forma que me faz sorrir. Respondo que adoro suas fotos. E assim começa a primeira conversa despretensiosa com aquele que já é figurinha carimbada na internet, Marco Rocha.

Na época, ninguém conhece meu rosto, ainda. Fico tomada de angústia ao pensar que tudo o que aquele homem sabe de mim é uma construção de fragmentos de textos meus, que possivelmente leu. Ele diz que não tem ideia de como me pareço, então envio um link com fotos do meu ensaio nua para a revista Playboy. São as melhores imagens que tenho, ainda sem revelar o rosto – onde, por outro lado, se vê todo o resto. Chama-me de “magrinha linda”. Fico afim de quebrar o gelo, mostrar o que há detrás da minha personagem virtual. Desconstruir uma idealização, que acredito deturpada. Sentir-me real.

Marco mora em Florianópolis. Quando chego a trabalho na capital catarinense, decido avisá-lo de que estou na área. Então combinamos de nos encontrar. Ele pergunta se estarei sozinha. Respondo que sim. “Serei toda sua”, brinco. Assim a conversa descamba para o duplo sentido. Faz parte do meu charme. Não quero alimentar muitas esperanças, pois não sei se posso corresponder às suas expectativas a meu respeito. Detesto frustrar as pessoas. E, de fato, nem todos me dão tesão. Antes de conhecê-lo pessoalmente, não tenho como saber. Na hora do encontro, se eu não sentir a superfície do meu corpo faiscando, nada acontece.

Além do que, o rapaz não é bem o meu tipo. Magrelo, tão branco que as espinhas parecem brilhar no seu rosto. Super alto, cabelo claro, sempre descabelado. Entretanto, obviamente quero parecer sedutora na hora de me arrumar para o nosso encontro. Nem que seja para fazê-lo passar vontade e instigar ainda mais o desejo que eu já sabia ter despertado em seu íntimo – seja com minhas perversões ecoando no seu imaginário, ou com a visão do meu corpo nu, insinuando-me diante das câmeras. Não que o garoto tivesse me dito isso. Não precisava. Deu para perceber que fui capaz de mexer com algo dentro dele, mesmo antes de nos vermos.

Desde cedo, decido me produzir com uma saia justa de couro e bota de salto plataforma que me põe quinze centímetros mais alta. Chamo a atenção de todos os meus colegas do trabalho. Não há quem não comente. Minutos antes do aguardado encontro, pinto a boca de vermelho – é para ela que quero atrair seu olhar. Retoco a maquiagem, tiro a meia calça, encurto a saia.

Marco chega para me buscar. De perto, ele é bem mais interessante do que em fotos. Ao meu primeiro cumprimento, toco seu cabelo com as pontas dos dedos, em uma carícia suave, enquanto estalo um beijo em seu maxilar, próximo ao pescoço. Abro um sincero sorriso e o encaro brevemente, já abrindo a boca para fazer alguma brincadeira. O diálogo flui como se fôssemos já íntimos.

Desenvolto, ele escolhe bem as palavras. Demonstra autoconfiança na forma de falar e agir. Seus trejeitos revelam certa malandragem. E logo me desarma. Sinto a cabeça pender, acaricio meus cabelos, a voz sai em baixo tom, desvio o olhar. Revelo minha timidez. Apesar de toda a brincadeira de duplo sentido e de gostar de provocar com meu visual, estou ali inocente. Seu perfil conservador me faz pensar que nada vai fazer. E não estou disposta a tomar qualquer iniciativa. Só me jogo naqueles que mexem com meus instintos de forma a me fazer incendiar por inteiro. Não parece ser o caso. Quero apenas conversar, trocar ideias, conhecer mais de perto aquela figura virtual e, quem sabe, um pouco mais do meio da internet que ele frequenta.

- Você é bonita, não precisava esconder o rosto – nesse dia, eu já havia enfim revelado minha face na internet.
- Ahaha, todo mundo acha que eu não mostrava a cara porque era feia pra caralho. Tsc, não é esse o motivo. Por incrível que pareça, ainda quero preservar um pouco de privacidade. Só isso. Complicado esse caminho que escolhi, de escancarar toda a minha intimidade – é neste momento que Marco me sabatina com diversas questões. Parece mesmo interessado em conhecer mais a meu respeito.

Chegamos à mesa do bar. Não tem a cerveja que quero. Servem uma latinha nada gelada. Comemos um petisco. Falamos sem parar. Curioso como nossos pensamentos parecem em sintonia, apesar de guardarmos opiniões tão distintas. Fico bem à vontade para falar tudo o que vem à mente. Revelo meus segredos. De tão cândida, nem sou capaz de notar suas segundas intenções quando ele me convence a ir a outro bar. É quando caio em sua armadilha. Basta entrarmos no carro novamente.
- Cheirosa! – ouço-o dizer, enquanto suas narinas aspiram boa quantidade de ar rente ao meu pescoço.

Não convence. Estive o dia inteiro na correria, continuo com a mesma roupa com que saí de casa, pela manhã, para pegar o ônibus. Ainda consigo sentir o odor do meu suor depois de um dia intenso de trabalho. É apenas uma desculpa para ele aproximar seu rosto do meu cangote. E então chegar ainda mais perto, para buscar com os lábios os meus. Consegue o que queria e me põe encurralada, acuada. Não sei como reagir. Rendo-me no instante seguinte.
- Deixa eu sentir seu gosto – fecho os olhos e viro o rosto para ele.

Inspiro fundo e nossas bocas se tocam. A textura dos seus lábios carnudos é incrivelmente macia, os movimentos ritmados me conduzem de forma que não quero parar. Uma de suas mãos segura forte bem na raiz dos meus cabelos da nuca. A outra vem acariciar meus seios já ouriçados. Solto um gemido suave. Ele em seguida puxa minha mão entre suas pernas. Sinto um volume rígido saltando em sua calça jeans. Grande. Estou surpresa. Realmente não esperava tanta selvageria daquele cara com pinta de intelectual, cheio de ideias conservadoras, que adora se pintar de bom moço no Twitter. Assumo uma posição de submissão e entrega.

- Você quer mesmo ir a um bar? Não poderemos ficar à vontade por lá.
- Seu malandro. Para onde você quer ir?
- Na minha casa não dá, moro com meu pai. A gente pode ir a um motel.
- Não, calma! Não quero ir ao motel com você agora. Vamos sentar na praia, então.
- Só se for na areia. Não tem banco lá.
- Putz, minha saia de couro na areia? No way.
- Então só resta o motel.
- Não quero ir ao motel com você, ainda. Nem tô com tesão. Nem sei se quero transar.
- A gente não precisa fazer sexo. Podemos comprar umas cervejas e só conversar.
- Ah, tá. Conta outra.
- É sério, lá podemos ficar mais tranquilos. Não tem opção melhor agora.
- Tá, vai. Pode ser – respondo, após um longo suspiro. Mal tive tempo de me certificar que é mesmo isso que quero.

Enquanto ele dirige, roço meu corpo no seu. Ele puxa de novo sua mão para sentir seu pau bem duro. Abre o zíper da calça. Gosto da sua expressão séria de dominação. Meu corpo lateja, arrepia a cada rosnado que o ouço emitir. Mordo de leve a sua orelha, solto um bafo quente. Estou gemendo.
- E isso que você disse que não está com tesão – profere com certa ironia, ainda ao volante.
- É que gosto de provocar – caçoo. E abro as pernas, mostro a calcinha, esfrego os dedos na minha virilha, arranco o sutiã para deixar os mamilos marcando sob a blusinha. Ele me olha e não sorri.

Ao entramos no quarto do motel, vou direto ao banheiro. Decido me lavar, sinto a calcinha bem suada e resolvo tirar. Volto só de blusa, que é comprida e cobre todo o bumbum. Abro uma cerveja.  Sento à cama. Encaro-o. Ele não espera nem um minuto e me ataca com um beijo voraz. Fico sem fôlego. Dedilha as curvas do meu corpo, põe-me sentada sobre ele. Institivamente, começo a rebolar.
- Tirei a calcinha – rio baixinho.
- Eu vi.

Pega-me pelo cabelo e me faz deitar. Abre minhas pernas. Sua boca desce até o meio delas. Ao contato da sua língua com meu clitóris, o prazer é tão intenso, tão imediato. Remexe, estimulando meu corpo. Fico esbaforida. Quase não acredito de tão deliciosa que é aquela sensação. Termino de me despir. Puxo sua camiseta para cima. Ele segura novamente meus cabelos, com força. Levanta seu quadril em frente ao meu rosto, abre a calça e expõe seu pênis grosso. Como é grande! Seguro firme. Marco empurra minha cabeça e me faz experimentar seu gosto.
- Engole – ordena.

Lambuzo suas bolas e coloco seu pau inteiro na minha garganta. Escorre saliva. Quero sentir bater cada vez mais fundo, na goela. Comprimo meus lábios, com vontade. Vejo que está prestes a gozar. Então ele interrompe o ato e vem beijar meus seios.
- Me chupa – sussurro, ao seu ouvido.

Ele parece me ignorar. Não gosto do descaso, por isso o pego pela cabeça e levo até embaixo. Bem do jeito que ele faz comigo. Sua língua me faz delirar mais uma vez. Quando sinto o orgasmo se aproximar, rasgo a embalagem da camisinha. Ele percebe o movimento e pega o preservativo da minha mão, para vestir. Ao mesmo tempo, dou outro gole na cerveja e viro o bumbum empinado diante de seus quadris, como que o convidando a me penetrar. Já estamos suados. Observo a cena nos espelhos, enquanto remexo os dedos em meu clitóris. Sua mão segura meus cabelos, o barulho de um tapa forte na bunda ecoa pelo quarto. Chego ao clímax. Grito.

Caio estatelada na cama. Contorço-me. Marco arregaça minhas pernas e mete cada vez mais rápido. Seu corpo coberto de suor, seu cabelo desgrenhado lembra um animal selvagem. Sujo. Tomo forças e peço para rebolar em cima dele. Abro totalmente as pernas e me sento sobre seu pau. Fico louca com a sensação daquele membro rígido batendo fundo dentro de mim. Deixo a cabeça pender para trás, a boca entreaberta. O rapaz mantém uma cara de tesão. Sério, compenetrado, enquanto observa os movimentos do meu quadril. Seu olhar é quase ameaçador. Neste momento, tenho outro orgasmo. Viro-me novamente de quatro, já quase sem forças para levantar a cabeça. Deixo que me foda como quiser.

Ele se levanta quando acaba. Fico me retorcendo. Sinto espasmos por todo o meu corpo. Começo a me arranhar.
- Há muito tempo eu não trepava assim, tão gostoso – murmuro, quase que para mim mesma. É verdade.

Ainda gastamos algum tempo nos observando, agarrados, diante do espelho. Trocamos impressões da vida e do mundo. Quando ele me deixa no hotel, estou tão excitada que tenho que me masturbar para conseguir dormir, torcendo para minha colega de quarto não perceber. Nos dias que se seguem, acordo cheia de desejo, afim de me bolinar, pensando na sua voracidade. Não passa.

Volta e meia, aquela vontade me arrebata novamente. Escrevo-lhe palavras sujas. E faço dele voyeur da minha depravação.

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