Menino criado pela avó


Menino criado pela avó

Produzir sob o véu do anonimato desenvolveu em mim certa paranóia. Por mais de um ano, mantive meu rosto escondido, repetidamente atormentada com a preocupação de manter minha identidade em sigilo. E, mais uma vez, voltava a ponderar sobre as implicações de assumir publicamente aquilo que escrevo. Pensava no que esse gesto poderia acarretar a mim e àqueles ao meu redor. Conversei com os amigos, questionei, refleti. A decisão de me manter anônima era, para mim, quase que uma prisão por detrás de uma máscara. Arranjei disfarces que nada diziam a meu respeito, com os quais eu não me identificava, apenas para poder esconder meu rosto. Quis me preservar do desgaste social e, mais do que isso, proteger a intimidade daqueles que convivem comigo.

Sabia que seria impossível me esconder de todos, para sempre. Aos poucos, fui contando aos meus amigos que poderiam se interessar em ler o que escrevo. Foi de um em um, até chegar a algumas dezenas. Pedi para divulgarem para quem pudesse gostar. Com o tempo, a coisa saiu do meu controle.

No dia em que fui assistir à palestra inaugural do workshop Fotografia para Pervertidos, fiquei apreensiva. Eu havia ajudado a divulgar na internet a oficina do meu amigo fotógrafo Alex Korolkovas. Então, desconfiei que estranhos pudessem me reconhecer ali. Na mesma noite, após o debate, eu iria a uma festa de fetiche. Cheguei montada: corpete decorado com pedras brilhantes, saia justa, meia arrastão de cor violeta, salto plataforma de verniz. Sentei-me ao lado de um amigo, já atrasada, tentando reparar no rosto dos presentes. Após abrir para as perguntas, Alex resolve me entregar:
– Alguma coisa a colocar, Lasciva? – gelei. Ele nem sabia de todas as minhas neuras quanto à identidade sigilosa.
– Quem é essa? Não conheço – respondo, dissimulada, e acrescento em tom mais baixo, para o amigo ao lado – quanta discrição!

Na saída, um cara nos acompanhou em direção ao meu carro, conversando sobre a palesra. Ele disse que pegaria um ônibus, então decidi lhe oferecer carona. Meu amigo não quis ir conosco. Fui levar o rapaz em casa. Vinícius o seu nome. Parecia que ele acabara de ser lustrado. Barba tão bem feita que deu para sentir a maciez do seu rosto, quando lhe dei um beijo na bochecha. Dentes brancos e perfeitos que perfaziam um sorriso reluzente. Cabelo bem curto, batidinho na cabeça. Pele morena, bíceps demarcados, peitoral empinado. Contou-me que, certa vez, foi a uma dessas festas de fetiche e se assustou com os rituais de sadomasoquismo realizados em público. Eu estava curiosa, pois seria o meu primeiro evento de BDSM. Vinícius demonstrou doçura ao agradecer pela carona. Pediu meus contatos e me entregou seu cartão. Fiquei com a impressão de que era um homem interessante. Pareceu experiente, na casa dos trinta e poucos anos. Além de muito bonito.

Dias depois, Vinícius apenas me cutucou no Facebook. Adicionei-o e retribuí a cutucada. Mais alguns dias se passaram e ele chegou puxando assunto no chat. Rapidamente, o papo chega a um nível no mínimo curioso.

Vinícius:
Essa mudança de polos magnéticos do planeta com aquecimento global está acabando com tudo mesmo.

Lasciva:
nossa não sabia q tava rolando mudança de polo magnético!

Vinícius:
O planeta está fora do eixo; os pólos não estão alinhados (como o norte e sul em exatos 90 graus), mas mais pendentes pra setenta e poucos.

Lasciva:
ah, isso explica muita coisa ;D

Vinícius:
E como! Mendigos com pregadores disputando para quem grita mais alto com traseuntes, cães e gatos vivendo juntos, leopardos adotando babuínos, mais suicídios, Deep Purple ainda tocando ao vivo, Rolling Stones pensando em gravar um novo álbum, Centro-Oeste com temperaturas frias….
Enfim, tempos estranhos.

Lasciva:
leopardos adotando balbuínos eu entendo
ai, eu tô numa crise produtiva aqui, vou concentrar, rapaz.
vc tem algum plano pro fds?

Vinícius:
Crise produtiva? Nem me diga!
Tenho que começar a editar quase 5.000 fotos, trabalhar no mínimio 15 textos mais que atrasados e ainda arranjar tempo pra colocar a leitura e cinema em dia.
Planos? Nenhum! Mas aceito sugestões.

Lasciva:
eu queria conhecer o Puma Social Club. já foi lá?!

Vinícius:
Eu nunca ouvi falar disso.
O que é?

Lasciva:

http://brasil.puma.com/social

um bar novo que abriu na Augusta
um projeto da Vice

Vinícius:
Um bar?
Hhmm….

Lasciva:
parece diferente, tem uns jogos e pãns
fiquei curiosa pra ver

Vinícius:
Interessante….
Pra quando tu pretende cair lá?

Lasciva:
não decidi ainda. vc quer ir comigo? que dia fica melhor pra vc?!

Vinícius:
Estou de férias e totalmente desatualizado de Sampa, então, se é um convite, quando tu quiser.

Lasciva:
legal. pra mim sexta é uma boa. te mando mensagem, ok? meu celular pifou, mas pretendo adquirir um novo até lá
vamos se falando, bonito
besos

Vinícius:
É só dar um toque.
Beijos; boa noite.

Lasciva:
durma gostoso ;D

Vinícius:
Opa; pode ter certeza; friozinho, sonzinho, livrinho e uma grande vontade de curtir o nada!
Boa soneca!

Tomei a iniciativa de marcar o encontro, já que ele parecia tão interessado. Para variar, cheguei atrasada no Puma Social Club, na noite do aguardado date. Ele já me esperava, no bar, bebendo Coca-Cola. Eu estava abstêmia na época. Vinícius contou que também não bebia. Vimos alguns amigos em comum por lá, jogando ping-pong. Depois de um passeio pelo ambiente, pegamos nossas garrafinhas d’água e sentamos para conversar. Passou-se uma, duas horas que estávamos juntos. Fui aproximando nossas cadeiras cada vez mais. O rapaz não parecia interessado em contato físico, por mais que eu me debruçasse sobre ele. Comecei a me incomodar com aquela conversa careta, os dois sóbrios, sem nenhuma pegação.

À meia-noite, o bar fechou. Decidimos, portanto, continuar a noitada em outro lugar. Após rodarmos de carro, optamos por comer batatas numa hamburgueria ali perto. Na saída do automóvel, segurei a sua mão. Ele pareceu assustado com meu gesto. Fiquei tensa de ver que o rapaz quase deu um pulo quando apertei minha palma contra a dele. Mas, em seguida, Vinícius deu uma risadinha e disse que estava tudo bem. Andamos de mãos dadas, ele todo duro ao meu lado. O ambiente da lanchonete retrô inspirava um clima de romance. Mais uma hora de conversa se passou. Tomei um suco e comi algumas batatas. Coloquei para tocar na máquina de música a faixa “My Girl”.

A essa altura, a dúvida já me consumia: será que ele não percebeu meu amigo me chamando de Lasciva, na palestra? Estava evidente que o garoto não sabia de nada da minha identidade virtual e das coisas que apronto e exponho na web. E, se soubesse, estaria ali comigo? Comecei a imaginar qual seria a sua reação se eu lhe contasse das minhas travessuras escancaradas na rede. Como o rapaz se sentiria ao se colocar no lugar de um personagem de literatura erótica. Ele continuava a me olhar com um sorriso de apresentador de televisão, sem sequer tocar qualquer parte do meu corpo. Quatro horas se passaram desde que nos encontramos e o assunto acabara. Comecei a achá-lo tedioso. Fiquei me perguntando o fundamento de perder tanto tempo na companhia daquele cara que nada tinha a ver comigo.

Quando voltei do banheiro, desisti do meu lugar na sua frente e sentei no banco ao seu lado. Rocei meu braço no dele, me retorci um pouco, deitei a cabeça no seu ombro.
– Posso me aquecer nos seus braços? – indaguei, já puxando sua mão ao redor da minha cintura.
– Eeer… – Vinícius pareceu encabulado frente à minha atitude – pode.
– Quentinho – respondi dengosa, após um longo suspiro e algumas ronronadas do seu pescoço. Seu cheiro era realmente sedutor.
– Você usa perfume Chanel? – perguntou ele.
– Sim, olha! Acertou. Chance, da Chanel. Como sabe?
– Eu gostava de experimentar fragrâncias importadas na loja que havia ao lado do meu escritório. Ótimo perfume.

Acalentei-me um pouco mais nos seus músculos. Coloquei outro som de soul para tocar. Queria percorrer minhas mãos pelo seu corpo, mas deu medo até de ser acusada de estupro. Não rolou nenhum beijo. Pouco depois, pedimos a conta e voltamos ao meu carro.
– Queria te pedir uma coisa – falei, após entrarmos, sentada ao volante – me dá um beijo?
– Eeer… tá bom – respondeu o rapaz, antes de tocar sua boca na minha.

Gosto agradável, movimentos ritmados. Aquele momento de intimidade fluiu bem. Depois do primeiro beijo da noite, o fiquei encarando com cara de ponto de interrogação.
– O que foi? – questionou Vinícius.
– Não, não sei – titubeei na resposta.
– Pode dizer. O que foi?
– Eu não entendi… Por que você não quis nem me tocar? Por que você não me beijou, a noite inteira?
– Ah! Eu queria, claro que eu queria. Mas… você é uma mulher muito bonita, uma mulher interessante. Não quis me apressar. Fui um menino criado pela avó, educado para ter boas maneiras com as moças.
– Menino criado pela avó? – soltei uma risada sonora e liguei o carro na mesma hora. – Vamos nessa.

Comecei a dirigir. Quase o sufoquei com o aquecedor do carro ligado. Ele abriu os vidros reclamando de calor. Parecia realmente constrangido com a situação. Já no final da Avenida Paulista, percebeu que passei batido pelo endereço dele. Perguntou:
– Para onde você está me levando?
– Vou te raptar. Estou te levando para a minha casa – proferi, contendo o riso.
– Ah… tá – Vinicíus já estava completamente acuado.

Quando entramos no meu apartamento, coloquei um jazz, iluminei a sala à meia-luz. Ele andou pelo recinto de mãos para trás, encabulado. Ficou um tempo olhando meus livros. Convidei-o para sentar no sofá e me sentei já agachada no seu colo.
– Ah, é assim? Então tá –  anunciou ele, antes de segurar firme na minha cintura e deslizar seus lábios pelo meu pescoço.

Comecei a me despir. Finalmente o cara se posicionara como um homem experiente, que sabe exatamente o que fazer para me dar prazer. Entre um e outro beijos intensos e sonoros, abri meu sutiã, tirei minha saia. Puxei para cima a sua camisa e percorri as duas mãos naquele peitoral, passando por seus ombros, repuxando cada saliência dos seus músculos, até descer com leves arranhões sobre seus dois braços. Destravei o zíper da sua calça jeans e arregacei a braguilha. Cada mão dele veio sobre um dos meus seios, apertando polegar e indicador contra ambos os meus mamilos, em movimentos ritmados. No mesmo ritmo, rebolei meus quadris, pressionando-os sobre o volume cada vez mais rígido entre as suas pernas. Em pouco tempo, alcancei meu primeiro orgasmo, gemendo alto.
– Vamos, já gozei – levantei-me nua, baixando sua calça.
– Gozou enquanto eu estimulava seus peitinhos? Como você é sensível! – revidou, incrédulo.
– É, vem cá – puxei-o para o meu quarto, com a mão no seu pau.

Ajoelhei-me na minha cama, Vinícius chegou frente a mim, de pé. Olhei para o seu pênis, levemente curvado para a esquerda, de tamanho suficiente para fazer um volume considerável na minha mão. Comecei um boquete. Em seguida, foi ele que quis me fazer um oral. Mas sua língua não foi capaz de estimular o meu prazer. Minutos depois, o pedi para deitar. Dei outro beijo demorado no seu pênis totalmente ereto e vesti a camisinha. Sentei de pernas abertas sobre ele, olhando nos seus olhos. Requebrei os quadris enquanto eu mesma me bolinava, ali em cima. Após gozar novamente, abri as pernas e o deixei me foder como quisesse. Ele ejaculou enquanto metia em mim, de quatro.

Depois da transa, nos beijamos, pedi para ele me abraçar de conchinha. O dia estava amanhecendo. Conversamos mais um pouco, já bem cansados. Fui procurar para ele o telefone do táxi. Vinícius respondeu que não era preciso e que iria embora à pé.

No dia seguinte, senti melancolia ao me lembrar do garoto. Acho que ele não me aceitaria, se soubesse como eu me assumo safada e exponho minha intimidade publicamente. Tive a impressão de que ele, ingenuamente, havia investido em mim como uma pretensa namorada. Mas não, não sou capaz de me apaixonar por homens menos safados que eu. Para mim, uma noite ao seu lado foi suficientemente tediante. Vinícius ainda sugeriu de marcarmos outros encontros. Convidou-me para uma festa que não me apeteceu, chamei-o para me acompanhar no cinema mas ele não podia. Foi isso. Nada mais.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *