Nelson Rodrigues: 100 anos de perversão


Nelson Rodrigues: 100 anos de perversão

Hoje é o dia em que se celebra o centenário daquele capaz de traduzir, com uma simplicidade genial, a natureza do comportamento humano – o autor e dramaturgo Nelson Rodrigues. Descrito por Mário Bandeira como “O maior poeta dramático da literatura brasileira”, o escritor deixou um imenso legado, para nosso deleite.

Pequenos fragmentos de suas célebres frases demonstram como ele conhecia tão bem os desejos femininos e me fazem imaginar como ele deveria ser sedutor com seu jeito perverso.

Ele disse:

“Toda mulher é séria até o momento em que deixa de ser”

“Nenhuma mulher resiste ao beijo na boca”

Não é?

Carreira e vida intensas

Nascido no Recife, foi o quinto filho de um total de irmãos que chegaria a 14. Com apenas dois anos de idade, mudou-se com o pai Mário Rodrigues para o Rio de Janeiro, a então capital federal.

Nelson foi, antes de tudo, jornalista. Desde criancinha. Aos 14 anos, produziu com o primo Augusto Rodrigues o seu primeiro jornal. O tablóide Alma Infantil chegou à quinta edição. A publicação verborrágica foi capaz de causar constrangimento naqueles que a leram, principalmente seu pai. Era 1926, o mesmo ano em que o garoto foi expulso do Colégio Batista.

Sua carreira começaria pouco depois, aos 16, quando foi trabalhar no jornal de Mário Rodrigues, A Manhã. Interessava-se fundamentalmente pelas ocorrências de crimes passionais de adolescentes, para as quais era escalado como repórter. Circulou por diferentes editorias do noticiário, das páginas policiais às esportivas. Mas foi em O Globo, com a redação de críticas literárias e de ópera, que Nelson Rodrigues fez seu nome. Assinou também as páginas dos cadernos O Globo Infantil e Revista Gibi.

Ele tinha apenas 22 anos quando se internou em um sanatório em Campos de Jordão, para tratar da tuberculose. Casou-se em 1940 com Elza Bretanha, colega de redação com quem viveu 23 anos. Depois dela, chegou a morar com duas outras mulheres.

Poeta obsceno

Em 1941, ano seguinte ao seu casamento, publicou a sua primeira tragédia, A Mulher Sem Pecado, com uma montagem da Companhia Comédia Brasileira. Já se nota a natureza perversa de seus personagens, que reproduziam a realidade que o rodeava, da classe média brasileira. Na história, Lídia, que se diz “tão infeliz que tive que me deflorar com um lápis”, é casada com Olegário, que finge ser paralítico. “Eu acho que fidelidade deveria ser uma virtude facultativa”, diz o protagonista.

Stella Perry, atriz de A Mulher Sem Pecado

A peça antevia o que aquele que se denominou o “anjo pornográfico” viria produzir: mistérios inquietantes em dramas psicológicos, que prendem o leitor em uma angústia crescente. Sua obra capaz de desnudar o indivíduo de maneira brutal. “Fui, durante anos, o único autor obsceno do Brasil”, disse ele. Por isso, teve que enfrentar os críticos, a plateia ofendida, os moralistas.

Em 1943, Nelson se consagrou com a estreia da peça Vestido de Noiva no Theatro Municipal. Inovou no formato da narrativa teatral, ao apresentar a trama sob a ótica de uma mulher atropelada, em momentos de febre. A ação se passa como um delírio em sua cabeça, nos 40 minutos que antecedem sua morte. Ao mesmo tempo, sua irmã se casa com seu ex-marido, que o havia roubado. A família prefere ignorar o drama do sofrimento da garota no leito de morte e exaltar a união do novo casal.


Vestido de Noiva foi um fenômeno de audiência, que ficou anos em cartaz. Hoje é aclamada como um marco do advento do teatro brasileiro. Já a próxima peça de Nelson Rodrigues, publicada em 1945, foi censurada. Álbum de Família estreou nos palcos apenas 22 anos depois.

Literatura, teatro, jornalismo – tudo ao mesmo tempo

Nelson continuou produzindo incessantemente. “Os meus leitores permanentes ou eventuais (se é que tenho uns e outros) sabem que sou um obsessivo. Sou. E um amigo meu, se não me engano o Cláudio Melo e Sousa, chamou-se certa vez, de flor de obsessão. Essa flor de obsessão, mais que uma piada, é um Juízo Final. Não sou mais que isso, não quero ser mais que isso. Só Deus sabe o quanto devo às minhas ideias fixas. Não sou eu o único. O que é homem senão uma soma de suas ideias fixas?”


Lançou a coluna que viria a se chamar A Vida Como Ela É…, no jornal Última Hora, em 1951. Ao longo de dez anos, ele escreveu cerca de 2.000 contos para sua página. A Vida Como Ela É… se transformou na coluna mais lida do Brasil.

1953 foi o ano que estreia da peça A Falecida, na qual se imortalizou a frase “Todo o tímido é um candidato a um crime sexual”. É uma das várias tramas que teria como personagens jornalistas e como cenário a redação e a apuração de rua, assim como em O Beijo no Asfalto e Boca de Ouro. Seu olhar de ficcionista traduzia, em uma abordagem dramática, o cotidiano que o cercava.


No início da década de 1960, publicou o livro Asfalto Selvagem – a saga de Engraçadinha, seus amores e seus pecados, dos doze aos dezoito e depois dos 30. Nele, Nelson desvenda, a partir da vida de uma aparentemente pacata mãe de família, a alma humana e os costumes da época.

Neste mesmo ano, o autor se tornou comentarista de futebol na televisão. “O adulto não existe. O homem é um menino perene”, respondeu ele ao ser questionado se sua paixão pelo seu time Fluminense não era um tanto infantil.


A tragédia Otto Lara Resende ou Bonitinha Mas Ordinária estreou nos palcos em 1962. O personagem Peixoto fez história com suas frases: “Mas hoje em dia. Escuta. Quem não é canalha na véspera é canalha no dia seguinte. O Otto está certo. O mineiro só é solidário no câncer”. “Escuta. Toda a família tem um momento em que começa a apodrecer. Percebeu? Pode ser a família mais decente, mais digna do mundo. E lá, um dia, aparece um tio pederasta, uma irmã lésbica, um pai ladrão, um cunhado louco. Tudo ao mesmo tempo. Está ouvindo, Edgar?”

A peça leva o nome de um dramaturgo amigo de Nelson Rodrigues. “Para muitos, o título de minha peça cria o problema do ridículo. Jamais. Só os lorpas, os pascácios, os bovinos é que têm o pânico do ridículo. O sujeito que não resiste, ou não sobrevive ao ridículo – está liquidado”.

“Perguntaram muito se meu amigo é personagem da peça. Não. O Otto é título e não personagem. Mas toda a minha tragédia está fundada em uma de suas frases mais felizes. Certa vez, num sarau de grã-finos, ele disse o seguinte: ‘O mineiro só é solidário no câncer’. Só. Nem uma palavra a mais, nenhuma palavra a menos. E o curioso é que ele tem esses achados com uma facilidade verbal assombrosa”. A frase de Otto Lara Resende fazia mais sentido na época em que o câncer ainda não tinha cura, mas ainda traduz muito bem a realidade. O dramaturgo não gostou da homenagem dúbia do amigo.


Tornou-se autor de novelas em 1964. No ano de 1968, lançou o livro de crônicas O Óbvio Ululante. Em 1980, ano de sua morte por insuficiência cardiorrespiratória, estreou no Teatro do BNH (hoje Teatro Nelson Rodrigues) sua última peça. Ele definiu A Serpente como “sua criação mais brutal e afrodisíaca”.


Mário Filho, irmão mais velho de Nelson, dizia a todos para quem o apresentava que este era “um canalha, um pulha”. Mas Nelson expressava boa índole e sentimentalismo em muito do que fazia. Controvertido, politizado, foi um provocador debochado e virulento. Dicotômico, em sua essência, foi perverso e moralista, puritano e obsceno. De genuíno senso de humor. Viveu, viu e sofreu de tudo.

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