O adultério, por Nelson Rodrigues


O adultério, por Nelson Rodrigues

Trair é mentir. E o pior: enganar aquele que te ama. Acredito em relações saudáveis baseadas na liberdade de fazer tudo o que se deseja e dizer a verdade, sem receios de represálias. Relacionamentos abertos existem, e são cada vez mais comuns. Mas o patriarcado impôs um modelo de relação amorosa baseada na fidelidade. Era a forma de assegurar a hereditariedade, quando não havia controle de natalidade. Instituiu-se, assim, o adultério.

O escritor Nelson Rodrigues passou sua vida acompanhando crimes passionais nas redações dos jornais em que trabalhou. Assim, conheceu de perto a natureza perversa do ser humano. Desvendou fantasias inconfessáveis comuns a todos – homens de bem, senhoras honestas, virgens de catorze anos. Machista, disse certa vez que “de todas as profissões femininas, a mais válida e mais bem remunerada ainda é a de esposa”. Era outro tempo e, felizmente, muita coisa mudou – até mesmo a posição da mulher na sociedade. Porém, muitas das ideias por ele proferidas ainda se aplicam perfeitamente à nossa realidade.

Abaixo algumas frases que sintetizam a visão de Nelson sobre a infidelidade, compiladas do livro Flor de Obsessão, editado por Ruy Castro:

A mulher de um homem só é recente na história do coração humano.

A mulher normal, equilibrada, é capaz de amar dois, três, quatro ao mesmo tempo. O amor múltiplo é uma exigência sadia de sua carne e sua alma. A exclusividade que ela dá, e que o homem exige, representa um equívoco, ou pior: – um aviltamento progressivo e fatal. 

Cada minuto de fidelidade significa um novo desgaste. Há tão pouco amor por isso mesmo: – porque o degradam com desejos, com obrigações. Como dever, como obrigação, a fidelidade é uma virtude vil.

A fidelidade deveria ser facultativa.

Entre o desquite e a traição, é preferível a traição. Mil vezes a traição.

Certas esposas precisam trair para não apodrecer.

O adultério não depende da mulher e sim da vocação do marido. O sujeito já nasce marido enganado.

O marido não deve ser o último a saber. O marido não deve saber nunca.

Nenhuma mulher trai por amor ou desamor. O que há é o apelo milenar, a nostalgia da prostituta que existe ainda na mais pura.

Um adultério sem sobressaltos, sem correria, sem incidentes, pouco difere da rotina matrimonial.

Não existe família sem adúltera.

Tudo passa, menos a adúltera. Nos botecos e nos velórios, na esquina e na farmácia, há sempre alguém falando das senhoras que traem. O amor bem-sucedido não interessa a ninguém.

As mortas não traem.

 

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