Os contratos de Cinquenta Tons de Cinza


Os contratos de Cinquenta Tons de Cinza

O livro Cinquenta Tons de Cinza está popularizando o conceito de BDSM – sigla que significa “Bondage, disciplina, sadismo e masoquismo”, enunciados que resumem as práticas sexuais de dominação e submissão. Para quem quiser entender melhor os preceitos sadomasoquistas, recomendo o clássico francês da década de 50, História de O. Quem lê o romance da autora inglesa EL James lançado neste ano, em formato de trilogia, e que se tornou um best seller mundial, vai se deparar com uma história da carochinha, em cuja trama uma virgem garota é atraída pelo luxo e sedução de um empresário milionário, que se revela um dominador.

Fato é que esta novidade na literatura erótica está aquecendo o imaginário de milhões de pessoas mundo afora. E pode não ter sido capaz de me encantar, mas tem seu valor. Uma das coisas que me chamou atenção no livro são os contratos que o sádico Christian Grey dá à sua escrava Anastasia Steele, para assinar. Primeiro, ela dá visto em um termo de confidencialidade, que a proíbe de conversar com quem quer que seja sobre as práticas a que se submeterá na mansão de seu dono. Feito isso e seduzida por ele para se render aos seus pés, ele te dá um contrato de várias páginas, descrevendo tudo o que ela deve cumprir – o que inclui dormir regularmente, alimentação saudável, não fazer uso de drogas, beber pouco, vestir-se apenas com roupas que lhe são dadas, frequentar a academia quatro vezes por semana e idas ao salão de beleza. Ou seja, ao assinar o termo, seu corpo deixa de lhe pertencer e se torna um objeto de satisfação do dominador.

Isso está claramente apontado no contrato. Após uma série de cláusulas que apontam que eles não devem ter quaisquer doenças infecto-contagiosas e descrevem os deveres de cada um e as consequências de não cumprirem o estabelecido, entre os termos que se referem ao dominador, está descrito:

O Dominador aceita a Submissa como propriedade sua, para controlar, dominar e disciplinar durante a Vigência. O Dominador pode usar o corpo da Submissa durante as Horas Designadas, ou em quaisquer horas adicionais acordadas, do modo que julgar apropriado, sexualmente ou de qualquer outra maneira.

Ou seja, ela assume que deve estar disponível para ele durante certo período de tempo, toda semana. Há também cláusulas sobre safewords.

PALAVRAS DE SEGURANÇA
O Dominador e a Submissa reconhecem que o Dominador pode fazer exigências à Submissa que não podem ser satisfeitas sem que ocorram danos físicos, mentais, emocionais, espirituais ou outros na hora em que as exigências forem feitas à Submissa. Em tais circunstâncias, a Submissa pode usar uma palavra de segurança (“a[s] Palavra[s]“). Duas palavras serão invocadas, dependendo da gravidade das exigências.
A Palavra “Amarelo” será usada para chamar atenção do Dominador para o fato de que a Submissa chegou perto de seu limite suportável.
A Palavra”Vermelho” será usada para chamar atenção do Dominador para o fato de que a Submissa não pode tolerar mais qualquer exigência. Quando esta for dita, a ação do Dominador cessará completamente, com efeito imediato.

Um dos primeiros ponto do apêndice se refere às regras de disciplina.

Obediência:
A Submissa obedecerá a quaisquer instruções dadas pelo Dominador imediatamente, sem hesitação ou reserva, e com presteza. A Submissa concordará com qualquer atividade sexual que o Dominador julgar adequada e prazerosa, salvo aquelas atividades que estão resumidas em limites rígidos (Apêndice 2). Ela fará isso avidamente e sem hesitação.

A garantia da exclusividade dele sobre seu corpo e as atitudes dela longe de seu dono é descrita sob o título curioso de “Qualidades Pessoais”.

Qualidades Pessoais:
A Submissa não se envolverá em quaisquer relações sexuais com qualquer outra pessoa senão o Dominador. A Submissa se apresentará sempre de forma respeitosa e recatada. Ela deve reconhecer que seu comportamento se reflete diretamente no Dominador. Será responsabilizada por qualquer transgressão, delito ou má conduta incorridos quando não estiver na presença do Dominador.

Há, também, restrições do que se pode fazer durante o sexo, descritas em um outro apêndice do contrato

LIMITES RÍGIDOS
Nenhum ato envolverá brincadeiras com fogo.
Nenhum ato envolverá urinar, defecar ou produtos destas ações.
Nenhum ato envolverá agulhas, facas, perfuração ou sangue.
Nenhum ato envolverá instrumentos médicos ginecológicos.
Nenhum ato envolverá crianças ou animais.
Nenhum ato poderá deixar quaisquer marcas permanentes na pele.
Nenhum ato envolverá controle respiratório.
Não haverá nenhuma atividade que requeira contato direto com corrente elétrica (seja alternada ou direta), fogo ou chamas.

O apêndice mais interessante, no entanto, é aquele que trata dos limites brandos.

A Submissa concorda com:

Masturbação Cunilíngua Felação Deglutição de Sêmen Sexo vaginal Introdução de mão na vagina Sexo anal Introdução de mão no ânus

A Submissa aceita uso de:

Vibradores Plugues anais Consolos Outros brinquedos vaginais

A Submissa aceita:

Boundage com corda Boundage com braceletes de couro Boundage com algemas, grilhões Boundage com fita adesiva Boundage com outros materiais

A Submissa aceita ser contida:

Com as mãos amarradas à frente Com os tornozelos amarrados Com os cotovelos amarrados Com os pulsos amarrados Com a mão atrás das costas Com os joelhos amarrados Com os pulsos amarrados aos cotovelos Atada a  peças fixas, mobília, etc. Atada a uma barra espaçadora Por suspensão

A Sumbissa aceita ser vendada?

A Submissa aceita ser amordaçada?

Até que ponto a Submissa está disposta a sentir dor?
Sendo 1 no caso de gostar intensamente e 5 no caso de detestar intensamente: 1 – 2 – 3 – 4 – 5

A Submissa consente em aceitar as seguintes formas de dor/punição/disciplina:

Surras Chicotadas Mordidas Grampos genitais Cera quente Palmadas Surras de vara Grampos de mamilos Gelo Outros tipos/método de dor


Eu toparia quase tudo isso. Menos grampos genitais e fist – seja vaginal ou anal. Há certas coisas do BDSM que adoro, como bondage, gelo e cera de vela quente. Agora, essa coisa de que o corpo da submissa não lhe pertence fode tudo. Meu corpo é minha propriedade. Pode até ser usufruto de quem mereça, mas não abdico dele. Acho que, por isso, nunca aceitaria ser uma submissa. Não importa quão magia seja o dominador.

E você?

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