Pode me chamar de feminista, que eu gosto


Pode me chamar de feminista, que eu gosto

Não sei quem inventou que chamar o(a) outro(a) de feminista é ofensa. Não é preciso procurar demais para encontrar quem use o termo de forma pejorativa. Já vi aplicarem como sinônimo do movimento feminista a expressão sutil “fêmeas que não depilam o sovaco”. Credo, que grosseria. Soa como ignorância daqueles que não conhecem nossa história.

Há menos de um século, mulheres não tinham direito ao voto. Isso significa que sua opinião política era irrelevante. Não eram consideradas capazes de decidir nada. Nem sobre o próprio destino, deliberado por seus pais com pretensos maridos. E isso é uma herança muito mais antiga.

Após a instalação do patriarcado, há cinco mil anos, a mulher adquiriu o status de mercadoria: podia ser comprada, vendida ou trocada. Passou a ser considerada inferior ao homem e, por conseguinte, subordinada à sua dominação. Apoiando-se em dois pilares básicos – controle da fecundidade da mulher e divisão sexual de tarefas – a sujeição física e mental das mulheres foi o único meio de restringir sua sexualidade e mantê-la limitada a tarefas específicas. Entretanto, o golpe fatal nesse sistema ocorreu na década de 1960, com o surgimento da pílula anticoncepcional. A partir de então, o homem não pôde mais controlar a fecundidade da mulher.

O trecho acima foi retirado dO Livro do Amor, escrito pela psicanalista Regina Navarro Lins. Ela estudou os relacionamentos no decorrer da história, para reunir em dois volumes a descrição de modelos reproduzidos em cada época. Sua narrativa ilustra bem o tipo de sujeição que o gênero feminino sofreu ao longo do tempo. Então, se hoje vivemos condições diferentes da desigualdade do passado, isso se deve ao feminismo. Um movimento de luta. Mulheres que não recuaram diante de críticas, ofensas e agressões aos seus modos de agir e pontos de vista, para que hoje fosse possível a conquista de condições iguais entre os sexos. Na teoria, atualmente somos livres.

Isso se não fosse a existência de um machismo tão evidente entre nós. Veja bem, os conceitos não são opostos. Enquanto o machismo prega a superioridade do homem, o feminismo põe a mulher em pé de igualdade. E machismo não é privilégio de quem porta um pênis. Há muita mulher que prefere reproduzir as regras do patriarcado e se subjugar aos homens, infelizmente.

Nenhum direito adquirido, porém, é capaz de anular as diferenças biológicas entre os seres humanos. Neste ano, a capitã dos Fuzileiros Navais dos EUA, Katie Petronio, escreveu o artigo Chega disso! Não fomos criados todos iguais, onde narra sua experiência com o treinamento de combate como soldado de infantaria em áreas de guerra e, com base naquilo que viveu, defende que a mulher não tem preparo físico para a carreira militar. A capitã sofreu atrofia muscular, perda de peso, parou de produzir estrogênio e  se tornou estéril. Finalmente, decidiu se afastar, por problemas de saúde.

A experiência de Katie Petronio pode servir como advertência para as colegas da sua profissão. Mulheres não possuem tanta massa muscular e por isso costumam sofrer mais em trabalhos que demandam força e preparo físico. Mas, se outras quiserem se submeter às mesmas condições e apresentarem bons resultados (como, de fato, a capitã apresentou), – quem vai impedi-las de fazerem o que quiser com seus próprios corpos? É tudo uma questão de direitos humanos. Todos merecemos igualdade de oportunidades.

Ser feminista é garantir esses direitos de escolha. Afinal, quero poder fazer o que eu quiser. Isso não significa que irei usar barba ou coçar o saco, deixar minha pele áspera e parar de me depilar (não, só porque não é minha vontade). Quer dizer que não vou me amedrontar com ameaças de viver sozinha devido ao número de parceiros sexuais que tive na vida. Sim, chove de gente que tenta prever o meu futuro, como se todos partilhassem os mesmo valores ultrapassados e eu não pudesse ser amada, ao me assumir safada. Esforço inútil. Não vou mudar minhas atitudes, para corresponder aos anseios dos outros. Ninguém vai me tutelar. Nem outros homens, nem outras mulheres.


Eu dou o cu, tenho fetiche de ser dominada na cama, adoro ser objetificada, alimento minha vaidade com todos os tipos de cuidados com o corpo e produtos de consumo. Sou livre para isso. E ai de quem questione o meu feminismo.

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