Preferências e transtornos sexuais


Preferências e transtornos sexuais

A psiquiatria é uma especialidade muito nova dentro da Medicina. Ela se propôs a tratar do comportamento humano, mas há muita gente que questiona a forma como psiquiatras realizam os diagnósticos. Eles são necessários para conduzir um tratamento. Contudo, deve-se ter o cuidado para não taxar determinados casos, sem ter o entendimento do peso que a pessoa levará para a sua vida.

Essa reflexão é necessária ao se tratar de transtornos da identidade sexual e preferências – temas localizados dentro dos transtornos específicos de personalidade e comportamento em adultos. Segundo a décima versão da classificação internacional das doenças (CID-10), são eles: transexualismo, travestismo de duplo papel, transtornos de identidade sexual na infância, fetichismo, travestismo fetichista, exibicionismo, voyerismo, pedofilia e sadomasoquismo.

É importante ressaltar que só há um diagnóstico como doença do comportamento se o transtorno causar algum desconforto na pessoa ou comprometer a sua individualidade e segurança.

Vamos analisar caso por caso:

 

Travestismo

É quando uma pessoa tem desejo de viver e ser aceito como um membro do sexo oposto. Geralmente, há uma sensação de desconforto ou impropriedade de seu próprio sexo anatômico (pênis ou vagina) e um desejo de se submeter a tratamento hormonal e cirurgia para tornar seu corpo tão congruente quanto possível com o sexo preferido. Isso não significa que o travesti seja uma pessoa doente, claro. Mas antes atingir o seu objetivo, o desconforto físico é incapacitante a ponto de causar outras doenças, como depressão ou ansiedade social, casos de bullying e agressões físicas e morais. Com os recentes movimentos de aceitação estamos passando por uma série de modificações, inclusive constitucionais. Vamos aguardar o que vem por aí.

 

Travestismo de duplo papel

Caracteriza-se pelo uso de roupas do sexo oposto durante parte da existência para desfrutar a experiência temporária de ser membro do sexo oposto. Nesse caso, não há qualquer desejo de uma mudança de sexo mais permanente ou de redesignação sexual cirúrgica associada. Nenhuma excitação sexual acompanha a troca de roupas, ou distingue o transtorno do travestismo fetichista, que de que trato mais à frente. Antigamente, algumas mulheres vestiam-se de homens para serem aceitas e poderem execer papéis masculinos, como trabalho, condução de veículos e posição social. Alguns filmes falam disso como Albert Nobbs, com a magnífica Glenn Close.

 

Transtornos de identidade sexual na infância

Manifestam-se durante a primeira infância, sempre bem antes da puberdade. São caracterizados por uma angústia persistente e intensa com relação ao sexo designado, junto com um desejo e ser (ou insistência de que é) do outro sexo. Quem ainda não viu o filme Minha vida em cor-de-rosa, fica a dica. Há uma preocupação persistente com a vestimenta e/ou atividades do sexo oposto e/ou repúdio pelo próprio sexo. Acredita-se que esses transtornos sejam relativamente incomuns e não devem ser confundidos com a não-conformidade com o comportamento de papel sexual esteriotipado, a qual é muito mais assídua. O diagnóstico de transtorno de identidade sexual na infância requer uma profunda perturbação do sentido normal de masculinidade ou feminilidade; não é suficiente que a menina seja estabanada ou levada como um menino ou que um menino tenha comportamento de menina. A análise não pode ser realizada quando o indivíduo já atingiu a puberdade. Atenção: esse evento é raro e existem vieses sociais, apelos da mídia e esteriótipos famosos, bem como as restrições religiosas de cada religião.

 

Fetichismo

Entramos na áreas dos transtornos de preferência sexual. O fetichismo se caracteriza pela dependência de alguns objetos inanimados como estímulo para excitação e satisfaçãos sexuais. Muitos fetiches são extensões do corpo humano, tais como artigos de vestuário e calçados. Outros exemplos comuns, são caracterizados por alguma textura particular, tais como borracha, plástico ou couro. Os objetos-fetiche variam em sua importância para o indivíduo: em alguns casos eles servem simplesmente para intensificar a excitação sexual alcançada por meios comuns (por exemplo, ter parceiro usando uma determinada peça de roupa). Geralmente são um prato cheio para sex shops. É doença? Não. Só podemos tratar como patologia se causar dano psicológico ou sofrimento ao paciente.

 

Na próxima coluna, abordarei os demais transtornos de preferência sexual. Enviem dúvidas, exemplos e depoimentos, para enriquecer essa discussão.

Até o mês que vem!

 

Dr. Nelson Cardoso é psiquiatra com especialização em dependência química e comportamentos compulsivos, que estuda a sexualidade humana.

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