Sensualidade burlesca


Sensualidade burlesca

Burlar. É com essa intenção – subverter valores, apropriando-se de clichês, que surgiu a arte do burlesco no século 19. Inicialmente, era ligado à Comédia Dell’Arte, o teatro de costumes, e envolvia personagens caricatas. A esse tipo de encenação, que começou como uma sátira, depois foi acrescentado o striptease, geralmente parcial. Tornou-se uma das principais atrações dos cabarés nos anos 1920, quando a população entra em depressão devido à crise econômica e encontra nos espaços de entretenimento oferta de mulheres, diversão e bebida.

A cultura burlesca utiliza-se de elementos de humor e sensualidade, geralmente contando uma história em um número conceitual. Envolvia uma aura de glamour e elementos que exercem um papel fundamental na construção das pinups, popularizadas em 1940. O burlesco entrou em decadência no início da década de 1970, com o escancaramento da nudez, grande parte relacionado ao surgimento da revista Hustler, que mostrou pela primeira vez a foto de uma vagina aberta.

Desde a década de 1990, iniciou-se o movimento conhecido como neoburlesco, que retorma a cultura do striptease em um clima retrô, com teatralidade e humor satírico, incluindo também elementos contemporâneos. A sex symbol Dita Von Teese é um dos principais ícones da cena neoburlesca, promovendo concorridos espetáculos de striptease e vendendo sua imagem de pinup impecável.

No Brasil, o coletivo The Burlesque Takeover reúne performers e strippers homens e mulheres, que se apresentam com frequência, principalmente na cidade de São Paulo. Tive a oportunidade de participar do workshop de Sensualidade Burlesca promovido pelo grupo neste final de semana, durante o Festival Pop Porn, na Trackers, centro da capital paulistana. Os professores foram os dançarinos Sweetiebird e Marcelo D’Ávila, que é boylesque.

Show do The Burlesque Takeover durante o Pop Porn Festival

Intenção

Diferente do striptease tradicional, onde o objetivo é satisfazer o espectador, o número de burlesco é quase que um momento de egolatria de quem o apresenta. A atração delicia-se consigo mesma em cena, e o público atua como um mero privilegiado daquele espetáculo. Durante o curso deste sábado, Sweetie e Marcelo deram dicas de como melhorar sua autoestima e valorizar seus atributos para se mostrar sob o palco ou mesmo em casa, para o namorado. Orientaram os participantes do workshop a serem bem honestos consigo mesmos, focando naquilo que gostam do seu corpo e valorizando seus atributos ao mesmo tempo tratando de tirar sarro dos próprios defeitos. “Eu já entro em cena com os seios”, explica Sweetiebird.

O público é um privilegiado no espetáculo do burlesco

A aula de sensualidade burlesca também abordou como produzir um figurino e focar em roupas que sejam fáceis de tirar, caso esse seja o objetivo da apresentação. A dica para quem deseja valorizar a silhueta com um salto alto é usar sapatos de dança de salão, que têm solados mais estáveis e tiras que permitem prendê-los no calcanhar. Os ministrantes recomendaram calma sobre o palco e movimentar-se sem pressa, para evitar problemas de estabanação. Quando se olha para aquilo que está fazendo, o público acompanha seu olhar. Saber mostrar cada gesto alimenta a expectativa do que está por vir. Era notável a consciência corporal de Sweetie e Marcelo, que mostraram dominar a gestualidade do burlesco, até no momento de falar.

Os principais movimentos de uma dança burlesca ensinados durante o workshop foram:

Pose

Dançarinas burlescas mantêm o estilo até no momentos de ficar paradas. Seja em pose de bailarina, de calcanhares para dentro, ou com o pé da frente em meia-ponta e quadril ressaltado (a posição clássica das strippers de Las Vegas), o importante é não perder a postura e a classe.

 

Strut

A passada sobre o palco, o caminhar, seja para a frente ou para os lados, tem um rebolado próprio e a intenção se revela até no rosto, preferencialmente de queixo para cima.

 

Bumps

É notável como o movimentos dos quadris é intensificado com o uso dos joelhos. As dançarinas do ventre sabem bem como é mais fácil rebolar ao dobrar e esticar as pernas. É possível movimentar o quadril sem mexer o tronco e vice-versa.

 

Grind

Rebolado ultra sensual que sugere que a pessoa esteja se esfregando em algo. Envolve a movimentação dos quadris em torno do seu eixo.

 

Shimmy

Sacolejo de quadris e ombros, sacodindo-os em movimentos geralmente curtos e compassados, para frente e para trás.

 

Peel

Tirar as peças de roupa envolve técnicas específicas – cria-se uma sugestão inicial, mostra-se a peça e enfim ela é retirada com estilo. Há diversas maneiras de tirar uma luva da mão, o importante é valorizar o gesto, enquanto o faz. Dançar sobre as roupas é contraindicado e até perigoso. Chute-as ou jogue-as para longe de si.

 

Reveal

O ato final de um espetáculo burlesco envolve a revelação de partes do corpo, geralmente os seios cobertos de enfeites nos mamilos. Geralmente, não há nu total. O reveal é o momento pelo qual o público tanto espera.

 

Os shows de Sweetiebird e de Marcelo D’Ávila são inspiradores. Confira:

Se você já assistiu a algum show de burlesco, de que mais gostou? Caso nunca tenha visto, recomendo. É lindo.

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