Bissexualidade: todas as opções anteriores

Quando alguém tem poucas qualidades ou habilidades, diz-se que é limitado. Limites restringem, enclausuram. O elemento limitador é o que nos impede de ir além.

Já deve ter ficado claro como detesto me limitar. E então, depois de me formar como jornalista, senti necessidade de me especializar em relações públicas – e pensar a comunicação como um todo. Da mesma forma, nunca restringi minha atuação profissinal a um só território. Fui buscar oportunidades em São Paulo, agora decidi me jogar no mercado carioca e não paro de pensar em ultrapassar fronteiras internacionais.

Nos relacionamentos, acontece o mesmo. Prefiro me envolver afetivamente em relações em que é possível a liberdade. Cultivei o poliamor nos meus últimos namoros e me senti realizada ao poder ser sincera e permissiva com aqueles que amo – e ter o mesmo em troca. Por tudo isso, tento combater meus próprios preconceitos sempre que me vejo diante do outro. Dentro daquilo que me sinto confortável, procuro me permitir. E como é bom a diversidade de opções. Ver que na balada só tem cara sem graça e poder reparar nas gatas estilosas batendo cabelo no meio da pista. Sim, sou bissexual. Isso para mim é libertador.

A Escala de Kinsey

O que nós entendemos por masculino e feminino são construções sociais. Não é da natureza do homem preferir o azul, nem da mulher se vestir de rosa. Esses são apenas alguns dos diversos códigos definidos socialmente. O pesquisador Alfred Kinsey, o primeiro a estudar cientificamente a sexualidade humana, acreditava na fluidez dos graus de desejos sexuais:

Homens não são representados em duas populações distintas: heterossexual e homossexual. O mundo não é subdividido em carneiros e cabras. É um fundamento da taxonomia que a natureza raramente pode ser tratada em categorias discretas. O mundo em que vivemos é contínuo em todos e em cada um dos aspectos.

Quando se enfatiza a continuidade das gradações entre os heterossexuais e homossexuais exclusivos ao longo da história, parece ser desejável desenvolver uma gama de classificações que podem ser amparadas em quantidades relativas de experiências e respostas heterossexuais e homossexuais em cada caso. Um indivíduo pode ser associado a uma posição da escala em cada período de sua vida. Uma escala de sete categorias seria mais eficaz ao representar as várias gradações que existem atualmente.

 

Em suas pesquisas, para entrevistar 12 mil homens e 8 mil mulheres, ele elaborou uma classificação da sexualidade de 0 a 6:

0   Exclusivamente heterossexual
1   Predominantemente heterossexual, apenas eventualmente homossexual
2   Predominantemente heterossexual, embora homossexual com frequência
3   Bissexual
4   Predominantemente homossexual, embora heterossexual com frequência
5   Predominantemente homossexual, apenas eventualmente heterossexual
6   Exclusivamente homossexual

 

Segundo Kinsey, quando o que está em jogo é a intimidade de cada um, o normal e o anormal são meras convenções.

O que define a sexualidade?

Uma das dúvidas mais recorrentes entre as que recebo é de garotas que não sabem se definir. Sentem desejo por outras mulheres, mas têm medo de se tornarem lésbicas. Beijam a boca de suas amigas, mas fazem questão de afirmar: “não sou bissexual”. Até eu fico confusa com os dilemas delas. Talvez vejam o termo sob um estigma negativo e por isso fujam do rótulo. Possivelmente não se imaginam namorando outra menina. Entendo.

Nunca me envolvi numa relação amorosa com outra mulher. O que não quer dizer, é claro, que eu descarte essa possibilidade – afinal, não gosto de me limitar. Certa vez, ao conversar com uma amiga (heterossexual), tentei explicar o porquê de meus últimos relacionamentos terem acabado: meus parceiros e eu tínhamos objetivos de vida distintos. Então ela soltou o comentário que ficou ecoando em minha cabeça “Tá mesmo difícil achar um homem que queira o mesmo que a gente. Talvez a solução seja mesmo namorar outra mulher”. Puxa, faz sentido. Ainda não descobri se é essa a resposta, mas vai que?

O fato é que, para mim, o conceito sempre foi bem simples: bi é quem sente atração sexual por pessoas de ambos os sexos. Não importa se for para namorar ou só uma brincadeira, uma curtição – como o que costumo fazer com garotas que conheço. Já aconteceu tantas vezes de eu me enroscar toda nas minhas amigas para provocar os rapazes ou arrastá-los para um ménage. Então, no dia seguinte, a gente deitava na mesma cama para assistir a televisão juntas e sequer nos tocávamos. Ficava claro que era coisa de momento, que geralmente envolvia diversão com homens. Assim mesmo, ainda me considero bissexual.

O sexo do futuro

O cientista italiano Umberto Veronesi é apenas mais um teórico que acredita que a espécie humana deve caminhar para o bissexualismo “como resultado da evolução natural das espécies”. Seria, segundo ele, um resultado natural da dissociação entre o ato sexual e a finalidade reprodutiva. As pessoas iriam, portanto, escolher seus parceiros amorosos e sexuais pelas características de personalidade, e não mais por serem homens ou mulheres.

Uma sociedade predominantemente bi seria o resultado da dissolução da fronteira entre masculino e feminino. “O homem não precisa mais de uma intensa agressividade física para sobreviver”, explica Veronesi. Da mesma forma, mulheres têm assumido papéis sociais cada vez mais ativos. Com o tempo, a igualdade entre os sexos está se tornando cada vez mais possível. Com isso, vemos a quebra de uma série de paradigmas estabelecidos socialmente. O que se espera do homem e da mulher está mudando.

Prefiro não teorizar se a bissexualidade é o sexo do futuro. Difícil imaginar uma sociedade sem extremos: nada de héteros ou gays. Mas, ao observar as novas gerações, percebo mesmo essa tendência. Será que o futuro é bissexual?

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