Sheila, a mulher óbvia


Sheila, a mulher óbvia

Sheila é alta, seios fartos, morena, bunda empinada. Cheia de curvas. Joga seu cabelão de um lado para o outro, quando passeia na rua, rebolante. Remexe os dedos em sua boca carnuda, a todo o momento. Ela é linda.

Mas tão óbvia.

Só usa decote, roupa justa e saia curta. Não importa a qualidade da roupa que compra, mas o quanto aquele pedaço de pano vai deixar seu corpo à mostra. Vive revirando os olhos, de olhar oblíquo, cílios semicerrados. Mantém a boca entreaberta, como se não parasse de suspirar. Sua voz se parece com uma sinfonia de gemidos, de tão melosa. Não se cansa de deslizar as mãos sobre as formas de seu corpo. Sua atitude se resume a tentar atrair olhares e despertar o desejo dos homens ao seu redor.

Uma piscadela não correspondida é o suficiente para ferir sua autoestima. O mesmo acontece quando ela posta no Facebook uma de suas diversas fotos tiradas no espelho, fazendo biquinho, e não recebe comentários elogiosos. Ela se sente feia ou gorda, sempre que não é o centro das atenções.

A moça de vinte e poucos anos não tem uma amiga com quem possa contar. As garotas que conhece a acham fútil. As mais inseguras se sentem ameaçadas.
– Mulher é muito invejosa – Sheila gosta de dizer, ao justificar que seus melhores amigos são todos do sexo masculino.

Vive cercada de caras, que não lhe poupam regalias e bajulações. Ficam de guarda, ao seu lado, prontos para fazer o que ela quiser. Oferecem caronas, bebidas, convites para diversos lugares. Todos esperam, um dia, levá-la para a cama. Fatalmente, alguns deles conseguem eventualmente despi-la, quando ela desce de seu salto, em momentos de carência.

Durante o sexo, ao lembrar que aquele rapaz não irá lhe pedir em namoro – muitas vezes, ele é comprometido – Sheila sente culpa. E vira o rosto, faz cara de Madalena Arrependida. Fica parada enquanto ele mete. É tarde demais.
– Acredito muito em Deus – afirma ela, no momento do pós-sexo – não me sinto bem, quando faço essas coisas – e olha para o canto, faz bico, enruga a testa.

Externalizando sua crise existencial aos parceiros, a garota tenta consertar o dano moral sofrido, sempre que ela faz sexo casual. Aquilo não tem efeito. No outro dia, ele vai reclamar com os amigos que aquele mulherão é, na verdade, uma menina submissa e inepta na cama.

E ela vai sofrer sozinha. Queria um namorado. Acha que nenhum homem lhe serve. Seus preceitos não lhe trazem felicidade. Porém, Sheila não percebe. Sonha que vai amar alguém que lhe dê valor – enquanto ela mesma desvaloriza aquilo que faz.

É tão claro que sua previsibilidade a torna desinteressante. Sheila caminha pelas ruas, requebrando a cintura, suspirando alto, enrolando os dedos no cabelo. Sente euforia com a atenção que lhe é dispensada. Sente tristeza ao pensar no carinho e amor que lhe faltam.

Não sabe fugir ao óbvio.

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