SlutWalk toma as ruas de São Paulo


SlutWalk toma as ruas de São Paulo

Ano passado, surgiu o movimento conhecido no Brasil como Marcha das Vadias – tradução para a SlutWalk, manifestação feminista que começou no Canadá e se disseminou mundialmente, principalmente nas Américas. A primeira edição da marcha aconteceu em abril de 2011, em Toronto, após um policial se referir a sobreviventes de um estupro como “sluts” – expressão depreciativa que equivaleria a “vadias” ou “vagabundas”. Ou seja: a autoridade em questão emitia um juízo de valor negativo sobre a possível atividade daquelas mulheres, simplesmente devido à forma como elas se vestiam. E o pior é que ele usava seu ponto de vista preconceituoso quase que para legitimar um crime hediondo.

São Paulo foi a primeira cidade brasileira a aderir ao movimento, em junho passado. Achei a participação paulistana bem tímida, na primeira edição da Marcha. Não ouvi muito barulho, na ocasião, quando passei de carro procurando a mobilização. Não achei muitas fotos daquele dia, depois, na internet. As notícias falavam da mobilização de 300 pessoas. Fiquei questionando a evolução do movimento e a adesão popular a ele. Acompanhei a repercussão da SlutWalk pelo país e, logo depois, vi Brasília juntar 2 mil pessoas marchando juntas. Percebi aquelas ideias se espalhando pela população nacional.

Não à toa, a segunda edição da Marcha das Vadias ocorreu simultaneamente em 18 cidades brasileiras, neste sábado. Todas sentimos a mesma opressão, diariamente. De gente que nos diz como devemos nos vestir ou nos portar. Ou aqueles que definem que objetivos de vida podem ser alcançados, segundo cada conduta. Eu, agora, sinto mais do que nunca, a agressividade de uma cultura patriarcal que me impõe que só serei respeitada se agir com pudores. Percebo a todo o momento reações machistas contra as minha ideias – vindas até das próprias mulheres.

Repressão

Já discuti no meu blog, via comentários, com alguém que se dizia misógino e que afirmava ter orgulho disso, defendendo ser uma decisão racional – traduzindo, o cara se orgulhava por sentir escárnio por mulheres. Frequentemente, leio ameaças de quem diz que nunca terei um amor ou um companheiro, simplesmente por assumir gostar de sexo, sensualizar-me, não esconder minha libido nem minha preferência por relacionamentos abertos. Percebo que as críticas contra mim são as mesmas usadas contra qualquer garota que assume gostar de ser safada, veste-se com roupas curtas e não se preocupa em se adequar ao paradigma da “boa moça” (a pudica). Eu realmente não ligo para o discurso moralista que quer me repreender pelo que faço. Porém sei que muitas mulheres sofrem com o medo de ficarem sozinhas por serem vistas como vadias, simplesmente por fazerem o que têm vontade.

Dessa vez, decidi representar a libertação feminina da culpa que querem nos impor. Ciente de que a mudança de atitude deve partir das próprias mulheres. Começando por saber colocar as suas vontades, sem temer represálias. Enfrentá-las. Repudiar o moralismo que diz o que posso ou não fazer do meu corpo ou afim de determinar o meu futuro e a minha felicidade, segundo o número de parceiros sexuais que tive durante a vida.

Homens idolatram a imagem das mulheres públicas – ultra sedutoras, cheias de atitude – mas ainda querem que suas mulheres privadas, filhas e esposas, sejam santas e recatadas. Por isso, vemos garotas se podando a despeito da sua vontade, fazendo a linha para corresponder aos anseios de um namorado ou marido. Muitas vezes, o mesmo cara que dá crise de ciúmes por um decote, mente para a menina quando quer sair com os amigos para a pegação.


Resolvi levantar também a minha bandeira e dar o recado: sensualidade não é crime, nem pode ser motivo para legitimar violência e criminalidade
. Não importa o quanto certos segmentos da sociedade continuem a atacar as mulheres, infringindo-lhes culpa pelas agressões que recebem. Como quando, neste mesmo ano, o STJ inocentou um homem acusado de estupro, por manter relações sexuais com três meninas de 12 anos. Sob o argumento de que as meninas já eram sexualmente ativas e portanto aquilo não se configurava como abuso, os juízes fizeram do Estado conivente à prática da prostituição infantil e viraram as costas para um problema social.

Ainda vai demorar para a população assimilar que mulheres devam ser respeitadas, independentemente de suas roupas ou suas atitudes. É necessário lutar. O manifesto da SlutWalk, que tem como lema “Porque já tivemos o suficiente”, critica principalmente o fato de mulheres serem julgadas pelo seu corpo e o que fazem dele.

“Exigimos que nossos corpos e todos os corpos sejam respeitados. Nosso valor como seres humanos não é determinado por nossa sexualidade.
Não importa o que eu uso
Não importa como me pareço
Não importa a minha expressão de gênero
Não importa o quanto, quão pouco ou que tipo de sexo eu faço
Não importa o que fiz antes
Não importa de onde eu venho
Não importa o quanto meu corpo tenha sido ‘desvalorizado’ por outros
Não importa como tenho sido chamada
MEU CORPO NÃO É UM INSULTO”.

Parte do movimento

Neste sábado, 26 de maio, maquiei o olho mais preto que consegui pintar, passei o batom mais vermelho que encontrei em casa. Vesti uma lingerie prateada com babados e cinta liga da Thais Gusmão – decidi me estigmatizar, fazer de mim mais um símbolo da mulher discriminada. Calcei um coturno – para mostrar que sou mulherzinha, mas não vou me acanhar de enfiar um chute na cara de quem vier com estupidez me atacar. Quando cheguei na concentração da marcha, na Avenida Paulista, deparei-me com uma multidão organizada, rostos entusiasmados e gritos em prol dos direitos da mulher. A passeata, que durou uma tarde inteira, desceu toda a Rua Augusta – onde diariamente mulheres são hostilizadas e sofrem abuso, como se precisassem abrir mão do direito de escolha, pelo fato de se prostituírem, como se não merecessem respeito, do mesmo jeito que qualquer outra pessoa.

Vi mulheres, homens, gays, travestis – todos reunidos democraticamente contra as discriminações sociais. Reivindicando a liberdade de usarmos nossos corpos como quisermos. Conheci pessoas engajadas, como a garota Sara Winter, que me contou que está organizando no Brasil um braço do movimento político ucraniano Femen e está em busca de mulheres que queiram participar. Foi uma realização fazer parte dessa mobilização. Espero que continue crescendo e se unifique em toda a América Latina. Continuarei fazendo o que posso para contribuir a aumentar o espaço da mulher na sociedade e permitir que ela se sinta livre para fazer as suas vontades.

#souVadia

Fotografando com a linda Miriam Bottan

Tchaka gostou da brincadeira de pegar no peitinho

Distribuí fogo na marcha

Eu apoio o FEMEN Br

A mídia divulgou em peso

Foi uma diversão cansativa

Comissão de frente da marcha

A passeata lotou a Augusta

Bruno foi a bee que mais causou – adoro!

Yeah!

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Eu apoio o FEMEN Br Eu apoio o FEMEN Br marcha_das_vadias_2012-1786 Distribuí fogo na marcha Distribuí fogo na marcha
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Yeah! Yeah! A passeata lotou a Augusta A passeata lotou a Augusta 7292642264_42cb39be0d_b
marcha_das_vadias_capa marcha_das_vadias_2012-2298 A mídia divulgou em peso A mídia divulgou em peso
Tchaka gostou da brincadeira de pegar no peitinho Tchaka gostou da brincadeira de pegar no peitinho Fotografando com a linda Miriam Bottan Fotografando com a linda Miriam Bottan #souVadia #souVadia
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7292607032_1ef1b95cfd_b Bruno foi a bee que mais causou - adoro! Bruno foi a bee que mais causou – adoro!

 

Quem mais foi à Marcha das Vadias? Se você perdeu, por quê?

 

Fotos: André Carvalho

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