Transtorno sexual é aquilo que te faz sofrer


Transtorno sexual é aquilo que te faz sofrer

Nem toda a tara é um transtorno. Desde que feita de forma saudável e que não comprometa o cotidiano da pessoa – nem a sua individualidade. Isso foi dito no artigo passado sobre preferências sexuais, em que tratei de fetichismo e transexualismo. Isso, é claro, visto sob o ponto de vista da psiquiatria.

Continuemos a análise dos transtornos descritos nas classificações de doenças sexuais:

Transvestismo fetichista

Esse comportamento se caracteriza pelo uso de roupas do sexo oposto, principalmente para obter excitação sexual. Deve ser diferenciado do fetichismo simples, visto que os artigos de vestimenta fetichistas não são apenas usados, mas usados também para criar a aparência do sexo oposto. Uma história de transvestismo fetichista é comumente relatada por transexuais, como uma fase precoce. Provavelmente representa um estágio no desenvolvimento de transexualismo em tais casos.

 

Exibicionismo

É a tendência recorrente ou persistente a expor a genitália a estranhos (usualmente do sexo oposto) ou a pessoas em lugares públicos, sem convite ou pretensão de contato mais íntimo. Há usual, mas não invarialvelmente, excitação sexual quando da exposição e o ato é comumente seguido de masturbação. Essa tendência pode ser manifestada em períodos de estresse ou crises emocionais, entremeada com longos períodos sem tal comportamento patente. Fica como curiosidade: a exibição parafílica do pênis é denominada peodeictofilia. Esse comportamento pode ser mais claro também em pessoas esquizofrênicas e personalidades narcisistas.

 

Sadomasoquismo

Muitos se consideram sadomasoquistas, mas poucos sabem que ou se é sádico ou é masoquista. Raros são os dois juntos. O sádico não vive sem o masoquista. Eles se completam. O sadomasoquismo é a coexistência de atitudes submissas e agressivas em relações sociais e sexuais com outras pessoas, com um grau considerável de destrutividade presente; é uma condição supostamente carregada de energia libidinal. De maneira geral, as pessoas afetadas podem ter 3 tipos diferentes de atitudes em relação aos outros: primeiro, desejam que o outro exista igual a elas; segundo, consideram-se superiores ou inferiores à outra pessoa, embora ainda permanecendo interessadas na existência dela; e terceiro, oscilam entre agressão e submissão de maneira simultânea, de tal forma que desejam a destruição e a preservação da outra pessoa ao mesmo tempo. Quando agressão e o desejo de destruir prevalecem em um relacionamento, ele costuma ser denominado sadomasoquista.

A expressão sadismo vem como homenagem ao Marquês de Sade (1740-1814), escritor francês que descrevia pessoas cujo prazer sexual dependia de infligir crueldade aos outros. Essa descarga de “crueldade” e agressão, em si, pode ser prazeirosa, mas o sadismo sugere ainda prazer na destruição dos outros. Ao mesmo tempo, as manifestações do impulso agressivo progridem pelos mesmos estágios de desenvolvimento que as do impulso sexual puro (oral, anal e fálico) e, nesse contexto, esses manifestações costumas ser chamadas de Sádicas – daí oral-sádica, anal-sádica e fálica-sádica.

Já o masoquista (em função de Leopold Von Sacher Masoch (1836 – 1895), novelista austríaco cujos personagens se entregam a todos os tipos de perversões sexuais, obtendo prazer sexual de serem tratados com crueldade), é o indivíduo sente satisfação ao sofrer dor, maus-tratos e humilhação. O masoquismo é mais frequente em homens do que em mulheres. Aproximadamente um terço dos masoquistas também tem fantasias sádicas; assim são denominados sadomasoquistas.

 

Voyeurismo

Tendência recorrente ou persistente a olhar pessoas envolvidas em comportamentos sexuais ou íntimos, tais como despir-se. Isso usualmente leva à excitação sexual e masturbação e é realizado sem que a pessoa observada tome conhecimento. A internet oferece um prato cheio para o voyer. Quantas são as janelas indiscretas abertas para as pessoas serem observadas…

 

Pedofilia

É talvez o mais chocante e polêmico de todos os transtornos. A tendência natural é julgarmos um pedófilo, porque ele deixa uma cicatriz definitiva na construção do ego de um jovem. Mas pode ser capaz de viver incógnito na sociedade até que haja uma denúncia. O portador deste transtorno é incapaz, inicialmente, de conter os seus impulsos. Poucos são os que buscam tratamento ou suporte psicológico. Particularmente, como médico, tenho resistência a esse tipo de transtorno e prefiro não atendê-los em meu consultório.

Tecnicamente, a pedofilia é caracterizada por uma paixão por crianças (jovens), incluindo bebês (nepiofilia) e adolescentes (efebofilia), caracterizada por impulsos e fantasias sexuais envolvendo atividade sexual com crianças pré-púberes. Em geral, o pedófilo tem 16 anos ou mais, a criança envolvida tem menos de 13 anos, e o número separando o parafílico e o objeto sexual não é menos do que 5. A criança pode ser do sexo oposto ou do mesmo sexo, ou de ambos os sexos e as atividades relatadas são afagos genitais e sexo oral.

 

Quero voltar à parte gostosa do sexo. Transtornos são o que fazem pessoas sofrerem. Principalmente por suas características, geralmente não aceitas pela sociedade. São a exceção, e não a regra.

Não hesite em colocar suas fantasias em prática, se elas não fizerem mal a ninguém. E cuide da saúde. Além dos preservativos, use a imaginação. Deixe seus desejos fluírem.

 

* Dr. Nelson Cardoso é psiquiatra com especialização em dependência química e comportamentos compulsivos, que estuda a sexualidade humana.

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