Uma história de cinema


Uma história de cinema

Fazia ao menos oito anos desde a última vez que nos falamos. Pelo menos foi o que veio à mente quando me deparei com seu rosto anguloso, no evento de lançamento do meu livro. Surgiu uma imagem borrada da galera da faculdade reunida após a aula e nossas sempre breves conversas antes de cada um seguir seu rumo. Caio chegou para me cumprimentar com expressão de surpresa, no meio daquele bar lotado. Disse que não conhecia meu trabalho e comprou um exemplar. Apreciei o gesto, abri um largo sorriso e escrevi sua dedicatória. Ao lhe entregar, fui arrebatada por seu olhar. Devorador.

Pegou o livro, viu meu retrato no verso. Comentou:
– Que linda! – agradeci, baixando o rosto, ruborizada. Pensei em como aquela imagem deveria destoar de sua memória a meu respeito (a menina desengonçada que ele conheceu na faculdade).

O rapaz se despediu e o inesperado reencontro teria passado despercebido naquela noite agitada, caso o antigo amigo não viesse me adicionar no Facebook no dia seguinte. Percebi suas intenções assim que o vi puxando assunto.

“Caio nunca fez meu tipo”, pensei, receosa de não conseguir corresponder às suas expectativas. Até porque eu andava pouco propensa a novidades. Fazia tempo que me entediava ao lado de todos com quem saía. Há mais de ano, meu coração batia forte por Victor – um homem que me enchia de prazer na cama, mas nada além disso. Todos os outros pareciam apenas me fazer lembrar do dito cujo, que tanto mexia comigo. Repetidas vezes, minhas investidas em tentar esquecê-lo resultaram apenas em sentimento de falta e frustrações. Tantas foram as vezes que tentei sair com alguém e me pegava de novo pensando no garoto, indagando a mim mesma: “o que há de errado comigo para pensar tanto em quem não me dá a mínima?”

Mesmo assim, Caio fez um convite tentador: cinema. Há meses eu não assistia a um filme na telona. Ainda mais acompanhada. E, apesar de cansada, eu não tinha mesmo plano algum para aquela noite de quinta-feira. De viagem, em outra cidade, queria apenas aproveitar. Afinal, no fim das contas, não custava experimentar seu gosto, depois de tantos anos.

Tive que me arrumar às pressas. Em pouco tempo, o rapaz me esperava debaixo do prédio. Desci antes de conseguir terminar a maquiagem, de cabelo preso, achando-me desajeitada. Fui recebida com aquele sorriso familiar. Caio tem estilo um pouco desleixado, que chega a ser sexy em um homem. Moreno, usa o cabelo bagunçado, barba com cheia de falhas, camisa amarrotada. É alto, másculo, anda de peito ereto. Fui lhe dar um beijo no rosto e ele colou seu corpo no meu em um abraço apertado. Arranhei de leve seu bíceps, fazendo carinho, a fim de sentir a rigidez dos seus músculos.

Tagalerando, entramos no táxi. Logo o filme iria começar.

Chegamos ao shopping na hora certa. Mal deu tempo de ele comprar uma pipoca. A película, um cinema-arte gay pornográfico de baixo orçamento, me deu sono desde a terceira tomada repetida. Havia esquecido que Caio era tão cabeça.

Saí no meio da sessão, voltei com cerveja. A coisa ficou bem mais emocionante depois que um crime aconteceu na tela e Caio me beijou.

Sua boca era tão… Parecia me devorar. Fiquei envolvida com o sabor da sua saliva, a textura do seu lábio, o movimento da sua língua enroscada na minha. Um beijo tão demorado quanto delicioso. Bastou isso para me encher de vontade de retribuir aos seus gestos maliciosos. Suas mãos quentes apalpavam meu corpo com tanta brutalidade que me fizeram estremecer.

De repente, sem que percebesse, eu já estava entregue. Minhas pernas se abriam para ele brincar com os dedos lá embaixo. Levou as mãos à boca e tocou meus lábios com meu próprio gosto. Cravei minhas unhas contra seu braço. Abri sua camisa. Deliciei-me percorrendo com a ponta dos dedos seus pelos curtinhos.

Ele puxou os meus punhos em direção à sua calça. Senti o volume entre as suas pernas. Duro. E tão grande! Acariciei quase que involuntariamente, gemendo ao seu ouvido, enquanto ele esfregava seu polegar dentro do meu sutiã. Salivei.

Quando menos esperávamos, o filme acabou. Permanecemos sentados, conversando sobre as questões que ficaram no ar com desfecho daquela história, de final nada feliz. Todos saíram e, de repente, percebemos que estávamos sozinhos dentro da sala de cinema. Ele voltou a me beijar.
– Quero te chupar aqui mesmo – Caio sussurrou com tesão na voz.
– Pode ir – suspirei, levantando a saia e afastando a calcinha, a fim de deixar os pentelhos à mostra.

Que língua! Não contive os suspiros de prazer, elevando o rosto para o teto. Foi rápido, como tinha que ser. Puxei-o, interrompendo o momento.
– Será que não tem ninguém nos vendo? – questionei, segurando seu pau dentro da calça, depois que ele voltou para me beijar.
– Estranho nos deixarem assim, à sós.
– Vamos, eu tô com medo, deve ter umas câmeras aqui, nos filmando.
– Vamo – respondeu com outro beijo, esfregando-se todo.

Ao saírmos da sala, deparamo-nos com uma senhora atarracada detrás das cortinas de veludo vermelho na entrada do cinema. A gente se entreolhou, sem conter o riso.
– A gordinha tava bisbilhotando nossa pegação escondida ali atrás! – exclamei em voz baixa, quando nos afastamos.
– Será que a gordinha é dessas voyeurs que nem o personagem do filme, que ficava tocando uma atrás da moita? – caímos na risada.

Atravessamos o shopping vazio de mãos dadas, ainda entorpecidos por aquele frenesi.
– A gente quase conseguiu transar na sala de cinema. Que fetiche – revelou, ao pisarmos na escada rolante, enquanto puxava meu corpo em contato com o seu. Abriu um sorriso convidativo. Seus olhos denunciavam sua depravação. A empolgação em sua voz era também contagiante.
– Morro de tesão por sexo em locais públicos, mas ali podia dar problema…
– Gosta, é? Também – declarou, olhando para os lados, logo após atravessarmos a porta do shopping. Apertou minha mão. – Vem aqui!

Puxou-me para um canto escuro ao lado do centro comercial, onde ficamos detrás de uma pilastra, cercados por um jardim. De novo, senti o gosto daquele beijo delirante. Era hora de retribuir ao prazer que ele me deu. Ajoelhei-me aos seus pés, abri o zíper da sua calça, sorri perversamente e coloquei para fora seu pau totalmente ereto diante do meu rosto. Encarei-o e enfiei tudo dentro da boca, gemendo, chupando, sugando com vontade. Em meus pensamentos, queria arrancar nossas roupas de uma vez. Continuei até que a vontade de rebolar sobre ele ficou incontrolável. Levantei-me e, de novo, minha boca buscou a sua.
– Onde você mora? Mora sozinho? – Balbuciei.
– Sim, aqui perto, quer ir pra minha casa?
– Por favor – respondi, em um beijo, com olhar de pidona.

Chamamos um táxi e mal nos contivemos, envolvidos em beijos molhados. Porém a selvageria da sua pegada senti mesmo assim que pisamos no seu apartamento. Arrancou minha blusinha, abriu meu sutiã, cobriu de beijos os meus mamilos, enquanto eu respirava ofegante e percorria as unhas por dentro da sua camisa, já com os botões todos abertos por mim.

Conduziu-me até uma cadeira, pôs-me sentada, ajoelhou-se entre as minhas pernas. Sua língua me tocou com movimentos certeiros que me fizeram gemer cada vez mais alto. Seus dedos vieram se remexer mais embaixo, penetrando em ambos os meus orifícios de forma que meu corpo se arrepiou por inteiro. Em pouco tempo, senti os espasmos que antecedem o orgasmo, de maneira tão suave e surpreendente que perdi o controle sobre os meus sentidos. Gozei em silêncio, risonha, com expressão de gratidão, fazendo cafuné em seus cabelos macios.

Ele veio direto para cima de mim. Segurei seu pau, tão rígido, sobre minha barriga. Baixei sua calça e fiquei a admirar sua nudez, ajoelhada, enquanto o ajudava a tirar sua cueca. Abocanhei-o novamente, gulosa, desejando que me penetrasse de vez. Sabia que era o que eu teria em seguida. Caio se sentou, ajudei-o a pôr a camisinha, então me agachei sobre ele, rebolando lentamente.

Virei-me de costas e sentei de novo ao seu pau, mexendo ainda mais o quadril. Depois me reclinei empinada para ele, que veio me foder em ritmo cada vez mais acelerado, enquanto eu me arrebitava o máximo que conseguia, lançando olhares para trás e emitindo gritinhos de prazer. Ele me deitou na cadeira, segurou meus joelhos perto dos quadris e me penetrou com ainda mais força. Ficou de pé e me levantou no colo, ainda com seu sexo encaixado ao meu. Segurei-me em seus ombros e ele continuou a meter, movimentando meu bumbum para cima e para baixo, de forma que me deixou louca.

No instante em que me vi diante dele, ao ouvir sua voz inebriante dizer “vem cá”, e sentir sua mão me puxar pelo punho, foi quando percebi que não me lembrava mais do Victor – aquele que tanto dominara meus pensamentos no último ano. Foi uma sensação incrível perceber que o que eu estava vivendo me envolveu de tal forma que me fez esquecê-lo. Aquilo parecia tão mais divertido que evocar lembranças indesejadas. Apenas afastei aquelas memórias e continuei curtindo o momento, como que em transe naquela química explosiva entre nossos corpos.

No quarto, ao cavalgar sobre ele, tive outro orgasmo, aos gritos. Ele gozou pouco depois, suado, enquanto me penetrava de quatro. Ficamos ali, abraçados. Curtindo a tranquilidade do nosso êxtase, trocando ideias.

O que não faltava entre a gente era assunto, após tanto tempo sem nos vermos. O papo foi longe, falando sobre nossos caminhos e desventuras ao longo da vida. Mas acho que meu coração bateu mais forte na hora em que ele me contou ser feminista. Realmente, o rapaz é um tipo raro. Senti-me privilegiada de acabar em seus braços.

Porém, de alguma forma, havia algo de estranho no ar. Até que ele veio esclarecer, ainda deitado ao meu lado.
– Que legal ter te encontrado assim, no bar, do nada! Ainda mais agora – balancei a cabeça pra cima e pra baixo, com olhar de gratidão. – Deixa eu te contar: é que eu tenho uma relação… aberta.
– Ah, você tem namorada! – suspirei, virando o rosto para o lado, sem esconder meu desapontamento.
– Ela está viajando, já faz quase um mês. O tesão atingiu um nível incontrolável, não paro de me masturbar. Não sei o que me deu – confessou rindo meio sem graça.
– Ué, mas você não pegou nenhuma outra garota nesse tempo todo? – caçoei, risonha.
– Não, não, prefiro evitar problemas…
– Foi mesmo tão bom te ver – arrematei, voltando-me para ele, com um sorriso maroto. – Nossa, você é muito gostoso! Eu não imaginava – baixei o rosto, encabulada.
– É, eu sei. Até porque você tinha uma paixonite pelo meu primo, né? Só tinha olhos para ele.
– Er… – respondi com uma risada tímida.
– Uma vez você me disse assim: “Ah você é bonitinho, mas seu primo é liiiiiindo!”
– Sério? E você lembra até hoje? – gargalhei. – Você deve ter pedido, para eu chegar a dizer uma coisa dessas.
– É, talvez.
– Ah, seu primo é legal, mas você manda melhor! – Arrematei, de zoação.
– Me poupe de detalhes! Ele é meu melhor amigo – apenas olhei para o lado e sorri, em silêncio.

Não costumo dormir com quem não tenho intimidade. Mas não consegui recusar seu convite de passar a noite em sua casa. E dormi tão gostoso, capotei. Acordei com ele me bolinando, já inebriado de tesão. Fazia tempo que eu não curtia sexo matinal.

Tomamos um suco e tive que ir embora. Seu gosto, seu cheiro, permaneceram em meu corpo. A imagem daquela noite fixou em minha mente. Poucas horas se passaram e eu já estava apertadinha de saudade do seu toque, seu riso, sua companhia. Tirei uma foto e o enviei, mostrando que meu olho estava menos irritado (precisei deixar as lentes dentro do colírio, para dormir em sua casa – o que não deu muito certo). Ele respondeu contando seu dia e me desejou uma ótima sexta. Ou seja, não parecia querer me rever, para minha frustração. No dia seguinte, não vi que ele mandou um mensagem bonitinha de bom dia. Quando fui ler aquilo, já era domingo, e eu precisava viajar de volta para casa. Peguei o avião aliviada ao realizar que alguém finalmente tinha me ajudado a esquecer o garoto por quem suspirava há tanto tempo. E o que me faria parar de pensar em Caio?

Semanas se passaram e chegou a data em que ele disse que viria ao Rio de Janeiro. Não me aguentei e decidi perguntar: cadê? Sua resposta me desanimou. Chegaria depois do esperado, trabalhando desde cedo até altas horas da noite. Tive que me resignar com a ideia de que não seria possível revê-lo. Restava saudade, vontade de mais e mais.

Alguns dias se passaram e eu bebia com uma amiga, às três da manhã, em um boteco. Para minha surpresa, o telefone tocou. Fiquei boquiaberta quando li, na tela: era Caio.
– Oi? – Atendi, ainda incrédula.
– Oi, tô aqui. Quero te ver!
– Agora? – Eu não estava entendendo nada.
– É… foi quando deu para ligar.
– Tá. Estou na rua, mas tô indo para casa. Te mando o endereço por mensagem, pode aparecer. Vou te esperar – mal desliguei, eufórica, despedi-me da amiga e peguei um táxi.

Abri a porta de casa. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, sua boca encostou a minha com ainda mais voracidade que da última vez. Arrancou minha calcinha sem que eu tivesse fechado a porta, causando em meu corpo o mesmo tremor de outrora. E seu gosto de álcool com desejo me inebriou desde esse primeiro instante. Eu só queria mais, e foi o que tive. Transamos intensamente, ainda no sofá da sala. Até que eu gozasse em voz alta e o levasse para a minha cama, a fim de deixá-lo me comer na posição que quisesse. Adormeci em sono pesado pouco depois que assisti ao seu clímax.

Acordei ainda agarrada, vendo-o excitar novamente meu corpo, para mais momentos de êxtase e troca de fluidos. Mais sexo, mais orgasmos. Abraçada ao seu peito, trocamos confissões, ainda deitados. Tomamos café, falamos da vida. Antes de se despedir e sair para trabalhar, ele chegou por trás e me fodeu de novo, toda empinada sobre a cama, sem mal conseguir tirar toda a roupa. Parecia insaciável, bem do jeito que me deixa louca. Ah, se ele não precisasse ir…

Ao levá-lo até a porta de casa, atravessei seu caminho.
– Me pega no colo? – pedi, enquanto o encarava com olhar de tesão.

Ele me levantou em seus braços enquanto minhas pernas se fixavam ao seu tronco. Meti em sua boca um beijo molhado. Incrível a visão dos seus olhos, ali de cima. Acompanhei-lhe até a orla, naquela manhã ensolarada, ficamos agarrados esperando seu táxi. Demos um beijo de adeus, vi-o fechar a porta traseira do carro. E partir. Caio ainda tinha que trabalhar e seu vôo seria naquela mesma noite.

Fiquei um tempo contemplando o céu, o mar, aquele dia lindo. Pensando que agora eu estava sozinha e que sei lá quando ele voltava. Que foi tão delicioso, mas eu sequer podia sonhar com o garoto – que afinal, tinha namorada. Esperando que ele ao menos reaparecesse. Um dia.

Agora basta piscar que a imagem de Caio vem à minha memória. Sem camisa, dando risada, na cozinha da minha casa. Na cama, agarrado em mim, enquanto acaricio seus pelos do peitoral e falamos coisas à toa. Ou a cena que me faz arrepiar todinha: ao entrar em minha casa, baixando a minha calcinha antes mesmo que eu pudesse fechar a porta. Calafrios.

Pisca, pisca. “Esquece isso, Lasciva! Ele certamente não está pensando em você”.

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